quinta-feira, 15 de julho de 2010

Matemática

Ontem sonhei que era matemático. Os números dançavam a minha volta, cambaleavam e pulavam de trapézios triangulares. Vivia meu mistério sozinho, sempre sozinho. A bem dizer, sempre tive comigo certo desejo de dominar os números, de chegar à solução dos problemas, de achar ângulos, inventar fórmulas e desvendar a totalidade do universo. Sempre me fascinou o mundo secreto dos matemáticos, seus pensamentos exatos, suas lógicas inabaláveis, suas certezas indubitáveis. Se todas as ações do homem fossem fruto de somas, subtrações, divisões, talvez não errássemos tanto na vida.

Sonhei que vivia descobrindo todos os dias o mundo, tecendo só para mim os segredos desvelados, desnudos do cosmos. Vivia, é verdade, sozinho. Mas todos os grandes, para serem grandes, precisam esquecer aqueles que existem e só. Em um momento de loucura, após descobrir a fórmula do mundo, pulava de uma torre aonde havia me enclausurado. Habitava novamente o mundo da existência pueril. Aquela gente era menor que os números. Viviam em constante desordem. Logo conclui que não mereciam o que eu tinha de melhor, logo, conclui que toda a vida estava concentrada só em mim, mas também era muito difícil fazer-me entender. Todos os matemáticos são mal compreendidos. Não é possível chegar-lhes perto. Como queria ser alguém assim. Concentrado só em mim e nas incógnitas a serem descobertas. O mundo foi feito para os desbravadores, se assim é, ele pertence aos poucos, aos calados, solitários e incompreendidos.

Quando acordei era novamente qualquer um, que dormia às três horas da manhã e cuja rotina logo mais começaria de novo. Hoje quando despertei do meu sonho, estava pequeno e vazio. Vivo solitário dentro e fora dos meus sonhos, mas ainda não dominei o mundo e seus segredos abissais, não cheguei ao topo do penhasco para laçar-me em queda livre. Hoje depois desse sonho - uma vida que não tive -, senti vontade de nascer de novo. Pesa sobre minha história particular de poucas páginas, o eco de uma casa vazia.

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