Da tua boca que não fala
Do teu corpo que não dança
Das tuas mãos levadas ao rosto
Dos teus olhos cerrados
Do teu peito que se abre
dos teus cabelos lavados,
do cheiro de perfume que aos poucos acaba
dos teus sonhos deliberados,
na casa
louça por lavar, comida por fazer
na rua de domingo,
a noite se apressa
os carros não passam
a chuva não cai
não há sol, nem nuvens, nem barcos atracados ao cais
o mar lá fora é silêncio
o mar de fora é tão grande, imensamente grande.
Na onda que não quebra
entrevejo sua chegada
Você vem pela beirada do mundo.
Pelo mundo que não cessa de correr
Nos rélogios da cidade
nas calçadas poeirentas
nos sapatos apressados
no corpo de cada homem
você segue até mim, fim.
Tua boca cala
Teu corpo para, os seus olhos nos meus olhos.
A casa, a rua, o mar e o mundo, são maiores do que eu.
Tudo fala num só tom:
Da beira do mundo,
do mar naufragado,
da rua vazia,
da casa sozinha
você adentra em mim
toca minha mão
sente o meu sangue
diz, num tom onipresente
que se faça abismo minha vida.
Vens de tudo o que há
para cavar um simples nada em mim
Vens para dizer-me apenas, pequeno adeus.
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