sábado, 11 de julho de 2009

Tanto assim

depois
da embriaguez,
sentirei a sua falta;
depois dos vários risos,
sentirei essa indefinida tristeza
de estar longe de você.

quando a noite finda
e o céu enfermo
anuncia chuva,
eu sei
que voltarei ao meu antigo lar.

Da boca, que outrara, se fazia alegria,
nascerá o verbo mole.
Dos olhos, que descreviam órbitas,
brotará esse pequeno tremor
por sentir-me pobre novamente.

todos já se foram
e chove fraqueza...
nessas horas, sim, nessas horas
é que eu sei
que a vida não valia tanto assim...








quinta-feira, 9 de julho de 2009

A Literatura da Liberdade

A arte da prosa é solidária como o único regime onde a prosa conserva um sentido: a democracia. Quando uma é ameaçada, a outra também é. (...) Assim, qualquer que seja o caminho que você tenha seguido para chegar a ela, quaisquer que sejam as opiniões que tenha professado, a literatura o lança na batalha; escrever é certa maneira de desejar a liberdade; tendo começado, de bom grado ou à força você estará engajado.
Jean Paul Sartre[1]





Falar sobre a obra do filósofo francês Jean Paul Sartre Que é Literatura?, é fazer evocar a tessitura original da liberdade ao qual estamos todos condenados, é poder vislumbrar o engajamento em todo seu teor conceitual, ao contrário de uma definição pouco palpável, que se remete apenas ao mero engajamento voluntário. Que é Literatura? vai nos apresentar todo teor disso, que podemos chamar de objeto literário, colocará em presença a relação existente entre o leitor e o escritor, que pode ser entendida como a relação entre a leitura e a escrita.

Portanto, tentaremos neste trabalho, elucidar as noções de engajamento, liberdade, prosa, leitor e autor. Para tal, será preciso que nos remetamos à seção I, Que é escrever?, a seção II, Por que escrever? e a seção III, Para quem se escreve?, todas presentes no ensaio Que é Literatura?.

Na seção I, Sartre irá apontar as diferenças existentes entre a prosa e a poesia. Para ele, é através da escrita em prosa que o engajamento se torna viável, pois ela é um instrumento que faz uso da liberdade. É necessário salientar que o caráter engajado da prosa, decorre da liberdade que a atravessa, ou seja, quando através das palavras nomeamos o mundo e podemos ultrapassá-lo.

A condição para que haja prosa é a condição metafísica, que por sua vez está ligada com a noção de liberdade (condição metafísica da liberdade). O autor é livre para escrever, assim como o leitor é livre para também poder ler o que foi escrito. É preciso, contudo, sublinhar que este aspecto da liberdade pode ser encontrado de outra forma em sua obra A Transcendência do Ego, escrito de caráter fenomenológico que apontará a consciência como livre, por meio de seu mecanismo originário. Devemos lembrar que a definição de consciência explicitada por Sartre é a seguinte: toda consciência é consciência de.

Este de, pode ser entendido como a cláusula primeira da fenomenologia. Tal ciência é concebida como um estudo dos fatos de consciência: uma ciência que nos faz retornar às próprias coisas por meio do procedimento de intuição, logo, podemos caracterizá-la como um estudo que se ocupa dos fatos, isto é, do dado imediato, que nos possibilita descrever a consciência ao invés de descrevermos possibilidades lógicas a priori, como o fez Kant.

A consciência descrita no pensamento sartreano é livre, pois os objetos se colocam em presença dela por meio da espontaneidade. Podemos dizer que é através da dynamis da consciência que a realidade é fundada, ou seja, ela é tudo, na medida em que é consciência de todos os objetos.

A condição metafísica da liberdade que dissemos acima é esta condição primeira da estrutura da consciência, qual seja: a partir do momento em que ela é concebida como espontaneidade originária, (que por isso mesmo está sempre transcendendo para encontrar o objeto transcendente), a liberdade aparece como se fosse uma fatalidade, algo do qual não podemos escapar. Destarte, podemos dizer que a analogia presente entre A Transcendência do Ego e o ensaio Que é Literatura?, pode ser caracterizada como o movimento que a consciência realiza.

Na primeira obra, a consciência se apresenta como fundadora da realidade, porque é por meio dela que os objetos transcendentes se colocam diante de nós, o real é aquilo que a liberdade da consciência funda. Mas, faz-se notório salientar que a consciência tem o papel de ser consciência de si mesma e consciência dos objetos. Todavia, a consciência só pode ser consciência de si mesma na medida em que ela é consciência do objeto transcendente. Por isso Husserl disse: o mundo é essencial em relação à consciência e a consciência é essencial em relação ao mundo.


A existência da consciência é um absoluto porque a consciência está consciente dela mesma. Isto que dizer que o tipo de existência da consciência é o de ser consciência de si. Ela toma consciência de si enquanto ela é consciência de um objeto transcendente.[2]


No que tange ao ensaio, a prosa é o meio pelo qual há a possibilidade da representação do real, pois esse estilo de escrita em linha reta, fazendo uso da palavra, nomeia o mundo através da liberdade. A liberdade, portanto, é mediada pela prosa. Logo, a representação da realidade fundada por ela, se caracteriza como a ultrapassagem do sentido, que, em outras palavras, é a ultrapassagem do próprio mundo fundado através da “potência” da consciência que descrevíamos acima.

O signo tem um caráter utilitário, atinge as coisas. A prosa, ao fazer uso dos signos, aponta para outra coisa que não ela, por isso, ela desvela o real e pode ir além dele. Carrega consigo a possibilidade de ir para além do que está posto, ultrapassa o estado de alma, de sociedade e de mundo. Lemos:


A arte da prosa se exerce sobre o discurso, sua matéria é naturalmente significante: vale dizer, as palavras não são, de início, objetos, mas designações de objetos. Não se trata de saber se elas agradam ou desagradam por si próprias, mas sim se indicam corretamente determinada coisa do mundo ou determinada noção. [3]


O discurso, articulado pelos signos, desvela o mundo na medida em que o esclarece. Em um outro trecho Sartre dirá:


A prosa é antes de mais nada um atitude do espírito; há prosa quando, (...) nosso olhar atravessa a palavra como o sol ao vidro. (...) Assim a linguagem: ela é nossa carapaça e nossas antenas , protege-nos contra os outros e informa-nos a respeito deles, é um prolongamento dos nossos sentidos.[4]


Aquele que se utiliza da prosa, decide, portanto, desvendar o mundo, e, especialmente, desvendar o homem para outros homens “a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade” [5]. Sartre, ao dizer que a linguagem é um prolongamento de nossos sentidos, atenta para o fato de que esta, ao desvendar o mundo, possibilita-me a chance de mudá-lo.

Já dissemos que aquele que faz uso da prosa é o prosador, definido como um “homem que escolheu determinado modo de ação secundária, que se poderia chamar de ação por desvendamento” [6], ao contrário do poeta que é o homem que inutiliza a palavra. Este primeiro estilo de escrita (prosa), expressa através da palavra o significado, na medida em que a poesia o representa. Da mesma forma em que aquele que se utiliza da prosa expõe sentimentos, ele os vai esclarecendo; o poeta por sua vez, quando deixa suas paixões se enlearem no poema, passa a não reconhecê-las, uma vez que as palavras se apoderam destas paixões, ficam impregnadas por elas, e, por conseguinte, as transformam; não mais a significam.

Para Sartre, a poesia não pode ser engajada, porque esta inverte a relação: “o mundo e as coisas passam para o inessencial, convertem-se em pretexto para o ato, que se torna o seu próprio fim” [7]. O poema não está na ordem da linguagem, uma vez que, o poeta se afastou desta palavra-instrumento. Logo, a poesia, ao explorar o signo, o impede. Como conclusão, podemos dizer que o poeta não se engaja, porque o signo toma um outro rumo que o da prosa, ele não mais nomeia as coisas que estão presentes no mundo, porque como já foi dito, o mundo e as coisas tornam-se inessenciais.

Esta forma de escrever em versos não é engagé, porque na operação poética é como se a metáfora mudasse de sentido, não sinalizando mais o mundo, mas, sinalizando a si própria, inventando uma imanência do espaço poético. Tal imanência pode ser compreendida como uma matéria inerte do signo. Pode-se dizer que “the only engagement available to the poet is a seemingly negative form of “bearing witness,” or témoignage”[8]. Em uma nota da seção I, Sartre escreve:


Portanto, se se deseja realmente falar do engajamento do poeta, digamos que ele é o homem que se empenha em perder. É o sentido profundo desse azar, dessa maldição que ele sempre reivindica e que sempre atribui a uma intervenção do exterior, quando na verdade é a sua escolha mais profunda.[9]


Podemos agora formular uma definição palpável, todavia não completa, do engajamento enquanto uma noção profunda que não decorre de um voluntarismo qualquer, mas de uma operação que exige a liberdade daquele que escreve e daquele que lê. A ligação entre o compromisso e o livro se apresenta, talvez, como a definição mais simples e direta do engajamento.

Caso nos reportemos para o texto O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, do filósofo alemão Walter Benjamin, poderemos situar com mais propriedade esta figura que é o prosador. Benjamin escreve: “A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores.” [10]. Para Sartre, a prosa é o gênero pelo qual o escritor pode trazer à tona suas experiências singulares de liberdade, para compartilhar com o leitor. “Escrever é, pois, ao mesmo tempo desvendar o mundo e propô-lo como tarefa à generosidade do leitor” [11]. Ao escrever, o autor faz uso de sua liberdade através de certas experiências particulares, portanto, este gênero literário tem contido em sua estrutura a prosa como expressão da liberdade.

Concluímos assim, que a prosa não tem substância, uma vez que o fundamento dela é a liberdade que não pode ter substância. Escrever em prosa é uma operação de representação do mundo, ou seja, apresentar o possível do mundo, e por meio desta representação, descobri-lo. Cabe ao leitor, contudo, reviver as palavras contidas no livro.

Faz-se diante disso, necessário elucidar com mais profundeza a relação que há entre o autor e o leitor. A operação de escrever implica a de ler, como o seu correlativo dialético, e esses dois atos conexos necessitam de dois agentes distintos,


É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito. Só existe arte por e para outrem. A leitura, de fato, parecer ser a síntese da percepção e da criação; ela coloca ao mesmo tempo a essencialidade do sujeito e a do objeto. O objeto é essencial porque é rigorosamente transcendente, porque impõe as suas estruturas próprias e porque se deve esperá-lo e observá-lo; mas o sujeito também é essencial porque é necessário, não só para desvendar o objeto (isto é, para fazer com que haja um objeto), mas também para que esse objeto seja em termos absolutos (isto é, para produzi-lo). [12]


Sartre atenta para o fato de que a leitura e a escrita juntas são correlativos dialéticos, ou seja, instauram isto que podemos chamar de objeto concreto e imaginário, próprio da literatura. Objeto concreto porque o livro e a prosa, são tomados materialmente, e imaginário, porque ao ler, o leitor reavive o que está escrito, e por isso, pode desvendar e ao mesmo tempo criar; “de desvendar criando, de criar pelo desvendamento” [13]. Este objeto literário, o qual citamos acima, ainda que se realize por meio da linguagem, nunca é dado na linguagem, mas, como afirma o filósofo, ele é por natureza silêncio e contestação da fala.

Do mesmo modo em que as coisas se colocam, o objeto concreto e imaginário também se coloca diante de nós através do exercício da prosa, que, por sua vez, é fundada na liberdade humana. Tal objeto não tem outra substância a não ser a subjetividade do leitor, pois, o autor apela para a liberdade de outros homens:


(...) a espera de Raskolnikoff é a minha espera, que eu empresto a ele; sem essa impaciência do leitor não restariam senão signos esmaecidos; seu ódio contra o juiz que o esta interrogando é o meu ódio, solicitado, captado pelos signos, e o próprio juiz não existiria sem o ódio que sinto por ele através de Raskolnikoff; é esse ódio que o anima, é a sua própria carne.[14]


O leitor, por meio da leitura, reavive as palavras, que são caminhos de transcendência, dá forma e nome às suas afeições. A liberdade aparece neste dois pólos, qual seja, na escrita e na leitura. Sartre dirá no Imaginário, que a leitura é um sonho livre, presente em um nível de consciência reflexiva, mas aparecendo como consciência irrefletida[15].

A leitura ao aparecer tal como consciência irrefletida possibilita uma representação do real que é dado por esse primeiro grau da consciência. Destarte, o exercício de ler, se apresenta como um sonho livre, pois na medida em que leio os signos, os qualifico como portadores de uma verdade real. Neste caso, a consciência reflexiva não está oculta, está imersa neste imaginário da prosa.

Vale ressaltar que a liberdade mediada pela concretude da prosa, que por sua vez se utiliza de signos, é este mecanismo originário presente na tessitura da literatura. Só posso me relacionar com o livro se não pela liberdade. O que funda o livro como objeto é a consequência imediata do meu ato de ler, pois, o livro, este objeto real, só pode ser concreto através do imaginário.


O livro não serve à minha liberdade: ele a requisita. Com efeito, não seria possível dirigir-se a uma liberdade enquanto tal pela coerção, pela fascinação, ou pelas suplicas. Para atingi-la, há apenas um método: primeiro reconhecê-la, depois confiar nela; por fim exigir dela um ato, em nome dela própria, isto é, em nome dessa confiança que depositamos nela. Assim, o livro não é como a ferramenta, um meio que vise algum fim: ele se propõe como fim para a liberdade do leitor.[16]



A relação existente entre aquele que escreve e aquele que lê, é um exercício de generosidade, porque, como já fora enunciado, o escritor é livre para escrever na mesma medida em que o leitor é livre para ler. É preciso que o leitor reaviva e legitime o texto, pois sem ele, o livro é uma matéria amorfa que espera ser reavivada. A obra literária não é um instrumento cuja existência é manifesta e cujo fim é indeterminado, mas, ao contrário, ela se apresenta como uma tarefa que ainda deve ser cumprida, pois é preciso que haja leitores que legitimem a escrita .

O objeto literário é posto através do exercício do leitor: ao ler crio significados, ultrapassando aquilo que foi dito. O único meio de fundar a literatura é mediante um exercício específico de liberdade, através do engajamento. O engagement pode ser descrito como a liberdade que serve unicamente à liberdade, ou seja, uma liberdade que se compromete com a própria liberdade - o escritor tem um compromisso para com ela.

A estrutura da literatura consiste, portanto, a precensa tanto do leitor como a do autor (correlativos dialéticos). Sua potência está fundada na liberdade, na possibilidade de ultrapassar a palavra; é por isso que devemos sublinhar que tal potência não está na palavra, mas sim, na leitura. Sem esta, a objetividade literária não existiria, ou seja, a liberdade que está presente tanto no pólo da leitura como no pólo da escrita, precisa ser mediada por tal objetividade. Com isso, queremos exprimir que a idéia de objetividade da obra se realiza pelo leitor, que se apresenta como razão suficiente, privilégio do começo absoluto, realização que se dá pela experiência mais pura de liberdade. Sartre dirá:


Uma vez que a criação só pode encontrar sua realização final na leitura, uma vez que o artista deve confiar a outrem a tarefa de completar aquilo que iniciou, uma que é só através da consciência do leitor que ele pode perceber-se essencial à sua obra, toda obra literária é um apelo. Escrever é apelar ao leitor para que este faça passar a existência objetiva o desvendamento que empreendi por meio da linguagem.[17]


O exercício da leitura é criação dirigida, este começo absoluta de que falávamos, ela é operada pela liberdade do leitor naquilo que essa liberdade tem de mais puro. Por isso, o escritor apela à liberdade do leitor, para que este, possa legitimar e colaborar na produção de sua obra. Ao lermos um romance, é preciso que inventemos tudo em um gesto contínuo de ir além da coisa escrita. O autor nos guia, mas somente isso; “as balizas que colocou estão separadas por espaços vazios, é preciso interligá-las, é preciso ir além delas” [18].

O escritor é engajado quando tenta ser tão lúcido e completamente consciente de seu envolvimento com o tema, por outras palavras, se utiliza de suas experiências subjetivas de liberdade para escolher um tema, e, como consequência, escolher o público. O leitor, por sua vez, deve animar as palavras, ir além delas. A leitura e a escrita são mecanismos que possibilitam isto que estamos chamando de objeto concreto e imaginário. Contudo, é importante lembrar que a noção de literatura está estritamente vinculada a uma noção de liberdade, que a evoca por meio destes dois pólos (leitor e autor, entendidos como correlativos dialéticos).


(...) as liberdades do autor e do leitor se procuram e se afetam através de um mundo, pode-se dizer igualmente que a escolha que o autor faz de determinado aspecto do mundo é decisiva na escolha do leitor, e, reciprocamente, que é escolhendo o seu leitor que o escritor decide qual é o seu tema.[19]


Franklin Leopoldo e Silva, em seu artigo Literatura e Experiência Histórica em Sartre: O Engajamento, definiu com elegância a noção do engajamento sartreano,


(...) o engajamento em Sartre tem algo da aposta pascaliana: é preciso apostar, vous êtes embarqué. Mas, como fatalidade e liberdade se identificam, como o destino é sempre a construção prática de uma vida e de uma história, a responsabilidade é assumida como corolário de uma liberdade da qual não se pode fugir
[20].


Portanto, o engajamento pressupõe uma certa responsabilidade, que se dá por meio da situação. Há no mundo uma história sedimentada, por isso, o escritor realiza sua obra sempre em situação, ou seja, inserido em um dado contexto histórico. No livro Ética e Literatura em Sartre: Ensaios Introdutórios, Franklin Leopoldo e Silva, dirá que a literatura está inserida em uma história, na medida em que nossa consciência é sempre consciência do mundo que tem sedimentado a história. Ele dirá:


O escritor encontra o tema porque este se desenha na práxis para qual ele é reconduzido quando sua visão de mundo é compulsoriamente requisitada pela história, ou seja, quando a percepção da realidade passa a ser constituída pela consciência da historicidade. Essa mudança, na concepção das relações entre literatura e realidade, apresenta-se com um teor praticamente coercitivo, porque a historicidade aparece como dado inelutável, como origem ou raiz de todas as opções. Esse modo de estar diante da historia, que é descrito como uma presença brutal da atualidade, é que recoloca a prática literária como uma ação na história, entendida como uma síntese entre o irredutível e o relativo, entre “o absoluto moral e metafísico” e a contingência histórica.[21]


Como conclusão disso, Franklin Leopoldo atesta para o fato de que não é mais possível uma certa literatura de sobrevôo, ou seja, aquela que sempre considera a história como já feita, “aquela que trata o presente como a soberania e a onisciência com o que o historiador trata o passado” [22]. Tal literatura recusa a situação e o perspectivismo, recusa a sua historicidade. A partir do momento em que a literatura é uma representação da realidade, e esta realidade é constituída pelo mecanismo originário da consciência, o tema escolhido pelo escritor remete-se à situação de sua época, pois devemos lembrar que as coisas do mundo estão impregnadas de historicidade. Tal historicidade é libertadora, porque por meio dela, eu a ultrapasso na medida em que sou livre.

Quando dizemos que uma consciência está em situação, queremos dizer que ela está situada em um momento histórico, e, por conseguinte, comporta pesos e valores diferentes. A prosa faz a conversão de uma consciência abstrata para uma consciência em situação, ou seja, para uma consciência situada em um dado momento da história do mundo. Sartre escreve:


Entre esses homens mergulhados na mesma historia, e que contribuem do mesmo modo para fazê-la, um contato histórico se estabelece pelo intermédio do livro. Escritura e leitura são as duas faces de um mesmo fato histórico, e a liberdade a qual o escritor nos incita não é uma pura conseqüência abstrata de ser livre.
[23]


A liberdade, descrita neste pequeno trecho, deve ser conquistada em situação histórica. Cada livro propõem uma libertação concreta a partir de uma alienação particular; pois existe em cada um de nós, certo recurso implícito aos costumes, hábitos da sensibilidade, da imaginação; enfim, aos costumes e valores recebidos, ou seja, todo um mundo que autor e leitor compartilham. Esse mundo percebido por meio da consciência do autor, deve ser animado e impregnado por sua liberdade, e, segundo Sartre, é a partir dele que o leitor, por conseguinte, deve realizar a sua libertação concreta. Este mundo é a alienação, a situação e a história, e é ele que devemos mudar ou conservar tanto para mim como para os outros.

Podemos finalmente evocar diante de nós, isto, que estamos chamando e definido como literatura, ou seja, o movimento que perpassa o leitor e o autor, ambos livres, com experiências particulares de mundo[24]. Os dois pólos, transbordantes de liberdade, fundam, através da prosa o objeto concreto e imaginário. Afinal que é a literatura, se não “sempre uma produção histórica, e de que os escritores não detêm o privilégio de uma subjetividade supra-histórica, sendo também eles histórias individuais, processos existenciais de subjetivação inscritos na contingência” [25].

Por fim, engajar-se, é, na sua acepção mais geral, se assim podemos dizer, conseqüência de que o homem é uma questão para si mesmo, e uma questão, ao mesmo tempo, pessoal, social, ontológica e histórica, que se constrói no entremeio de uma relação em que a subjetividade somente se revela ao objetivar-se por vias da prosa. O engajamento se apresenta como revelação que supõe, portanto, um processo em que a subjetividade não se dissolva nas determinações objetivas. As experiências particulares de liberdade fundam a prosa, mas, cabe ao leitor incitá-las á vida.





Referências Bibliográficas:


Sartre. J.P. A transcendência do Ego. Tradução de Pedro M. S. Alves. Lisboa: Edições Colibri, 1994.

_________. Que é a Literatura?. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ed. Ática, 2006.

Goldthorpe, Rhiannon. Understanding the committed writer, in: The Cambridge Companion to Sartre, organizado por Christina Howells. New York: Cambridge University Press, 1992.

Benjamin, Walter. O Narrador, in: Obras Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2008.

Silva, Franklin Leopoldo e. Ética e literatura em Sartre: ensaios introdutórios. São Paulo: Ed. UNESP, 2004. – (Coleção Biblioteca de Filosofia).

_____________________. Literatura e Experiência histórica em Sartre: O engajamento, in: Filosofia e crítica: Festschrift dos 50 anos do Curso de Filosofia da Unijuí. São Paulo: Ed. Unijuí, 2007.


Notas:

[1] Sartre, J. P. Que é a Literatura. Tradução de Carlos Felipe Moises. São Paulo: Ática 2006. Pg. 53
[2] Sartre, J.P. A transcendência do Ego. Tradução de Pedro M.S. Alves. Edições Colibri. Lisboa. 1994. p. 47
[3]Sartre, J. P. Que é a Literatura. Tradução de Carlos Felipe Moises. São Paulo: Ática 2006. Pg. 18.
[4] Id., ibid., p. 19.
[5] Id., ibid., p. 21.
[6] Id., ibid., p. 20
[7] Id., ibid., p. 30.
[8] Goldthorpe, Rhiannon. Undertanding the committed writer, in: The Cambridge Companion to Sartre. New York: Cambridge University Press, 1992. Pg. 142.
[9] Id., ibid., p. 32.
[10] Benjamin, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2008. Pg. 198.
[11] Id., ibid., p. 49.
[12] Id., ibid., p. 37.
[13] Id., ibid., p. 37.
[14] Id., ibid., p. 38
[15] É preciso retomar A Transcendência do Ego, pois o mecanismo constitutivo da consciência aparece nesta obra. O objetivo do filósofo é mostrar como o cógito também é um objeto transcendente. Posto que o nosso objetivo aqui não se atém a este escrito, mas é análogo ao movimento presente em Que é Literatura, faz-se necessário que explicitemos este mecanismo constitutivo. Para Sartre, existe uma consciência irrefletida, que como já dissemos, é a clausula primeira da fenomenologia, ou seja, através de sua espontaneidade coloca os objetos transcendentes em nossa presença. Portanto, a consciência irrefletida é apenas consciência do objeto transcendente. O segundo grau da consciência, também denominada consciência reflexionante, se reflete sobre a consciência irrefletida. Em ambos os casos, a consciência de si. No primeiro, espontânea e não posicional, no segundo, consciência posicional da consciência refletida.
[16] Id., ibid., p. 40.
[17] Id., ibid., p. 39.
[18] Id., ibid., p. 38.
[19] Id., ibid., p. 58
[20] Pommer, Arnildo; FRAGA, Paulo Denisar; SCHNEIDER, Paulo Rudi (Orgs.). Filosofia e crítica: Festschrift dos 50 anos do Curso de Filosofia da Unijuí. Ijuí: Ed. Unijuí, 2007.
[21] Silva, Franklin Leopoldo e. Ética e Literatura em Sartre: Ensaios introdutórios. São Paulo: UNESP, 2004. Pg. 21-22.
[22] Id., ibid., p. 22.
[23] Id., ibid., p. 57.
[24] Podemos entender tais experiências, como experiências particulares de liberdade, pois, como dizíamos no decorrer do texto, o mundo é história sedimentada, e nós, como indivíduos inseridos no mundo, vivemos nossa situação histórica. A consciência, (que é sempre consciência de si mesma e dos objetos transcendentes), está imersa na história do mundo e deixa de ser consciência abstrata para se tornar consciência em situação, através do exercício generoso da prosa, que evoca a liberdade, tanto do pólo do autor, como do pólo do leitor.
[25] Pommer, Arnildo; FRAGA, Paulo Denisar; SCHNEIDER, Paulo Rudi (Orgs.). Filosofia e crítica: Festschrift dos 50 anos do Curso de Filosofia da Unijuí. Ijuí: Ed. Unijuí, 2007.