sábado, 21 de fevereiro de 2009

Triz

Monólogo em poema.
Deve-se declamar as estrofes um e dois de maneira abrupta, sentar-se em seguinda na cadeira como que caindo desfalecido, levar ambas as mãos ao cabelo, puxando-os levemente para cima.
As estrofes três e quatro devem ser declamadas com profundo pesar. Deve-se permanecer intacto, imóvel e inárravel.
A quinta e a sexta estrofe, devem ser lidas de forma abrupta, porém, com voz flagelada de dor. Levanta-se declamando a sétima e oitava estrofe com revolta e amargura, (abrupto). Deve-se permanecer imóvel, porém, de pé.
Por fim, a última estrofe (nona), deve ser declamada com pequenas pausas, retomando a melancolia presente na sexta e na sétima estrofe. O último verso deve ser declamado de forma sussurada, leve, angustiante e pausada.



A um fio
do vazio,
hiato da fala

A um passo
do fim,
intangível recuo.

O abusivo caminho
num fim de partida,
cança aos pés descalçados.

Te amei sonâmbulo,
trêmulo, mas afoito,
te amei por inteiro.

A indizível melancolia
de uns versos esquecidos
tingem no papel
antigos sentimentos.

Enquanto cantávamos, o sonho,
que era rasteiro,
fugia por debaixo da porta
Mistura de poeira e nada.

Queria que me visses
ceder e temer
a densa noite escura

para que no final,
eu recuasse e temesse o fim,
voltando mais uma vez absorto
para os seus braços.

E tua insígnia,
presente meu
que carregas junto do peito,
reluzirá, porque volta e meia
eu morro por ti.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Paixão da Alma

“Sócrates é feio, porém belo”. De imediato, a frase parece ser paradoxal, pois, como é possível Sócrates ser feio e belo ao mesmo tempo? Tentemos retirar da frase algum significado.
A fisionomia de Sócrates é feia, no entanto, sua alma é bela. Soergue-se novamente uma outra questão: Por que a alma do filósofo é bela? Para respondermos a isso, será necessário que foquemos nossa resposta em um campo ontológico.
Sua alma é bela, porque conhece as Formas. É o filósofo que possui o conhecimento do ton mégisthon máthema, ou seja, é ele que por meio da dialética alcança o supremo objeto de conhecimento, a saber, as Formas presentes no Inteligível.
A psyché (alma) de Sócrates conhece a imutabilidade, foge do devir quando, toca com o lógos (razão) o eidos (forma) do Bem. Nestes termos metafísicos acerca de uma Teoria das Formas, sua alma passa a ser kalokagathia (bela e boa). A ação realizada pelo filósofo não é física, porém, intelectual. Sócrates, tem a alma bela e boa porque busca a hé alétheia (verdade suprema).
Quando perguntam ao oráculo se há alguém mais sábio do que Sócrates, este, diz que não, Sócrates é o homem mais sábio entre todos os outros homens. Ele é sábio porque sabe que não sabe, na medida em que os outros, pensam que sabem quando, na verdade não sabem. O filósofo sabe que nada sabe. O gnóthi sautón (conhece-te a ti mesmo), é posto por Sócrates no exercício filosófico. O saber e sua prática, devem estar vinculados à busca incessante da sabedoria, por isso, a filosofia é antropiné sophi (conhecimento humano), pois, “uma vida sem exame, é uma vida que não vale a pena ser vivida”.
Sócrates representa uma grande figura para a Filosofia de um modo geral, e, por mais emblemático e paradoxol que tenha sido, não podemos negar sua paixão pela verdade. Esse pequeno texto, resumido e rápido, tentou apresentar uma resposta para uma frase que outrora nos parecia um paradoxo. No entanto, poderíamos dissertar sobre ela muitos outros parágrafos ainda, mas, como já nos alertou Sócrates, “as coisas belas são difíceis”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Antes

Rememoro o dia
em que fomos embora.
Antes de partir
O romper brusco
do coração.
O medo refreado
no momento em que eu quis puxar-te de volta
agarrando-o pela mão.
O grito seco, quase inaudito
de humilhação.
A casa, que de repente,
ficara vazia, inabitada, silenciosa.
As lembranças
que rolavam junto ao pó da sala.
O gosto amargo da saudade na boca.
O porvir da madrugada tão madrugada
sem outras manhãs.

Sua última palavra
ressoando áspera.
O seu abrir brusco da porta
deixando para trás
a fé de sempre tê-lo por perto.

Eu, em um completo vazio,
rememoro o antes da partida.
Hoje, já não há chão
que suporte minhas lágrimas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Devir constante


Todo sentimento, um dia,
virá a ser dor.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sábado

Na ânsia quase aflitiva
na busca pelo prazer
dos sábados de noite,
espalhavam-se pela casa
copos, garrafas abertas, restos de cigarro,
louça suja na pia, pessoas, música
Festa!

Ria-se por todos os cômodos,
som estridente de caráter
uníssono.
Dançavam no ar,
algumas palavras soltas
sobre a vida
Jogava-se cartas na mesa suja da cozinha
enquanto buscavam mais cervejas ocultas no congelador da geladeira
que vivenciava tudo de perto.

Às quatro da manhã
todos os quartos haviam sido ocupados
todos os rostos cobertos
e todos os corações soluçavam embriagados
um hit que embalava as paradas das rádios desde janeiro.
Sensação de perfeito bem-estar.
"Like a star, I´m famous and rich"

No volver da manhã
o porvir começava a iluminar a casa
espantando os convidados
que aos poucos
cabeteavam rumo a porta de saída
deixando para trás
essa euforia de sábado,
o rádio cheio de hits ainda por tocar, a garrafa de vodka quase findada,
os maços amassados de cigarro entre tantas outras coisas

A manhã anunciava
o fim de partida
a casa vazia
o dono adormecido
objetos usados
euforia que morria.

Amanhecer era
um castigo,
mas passava indolor
com o sono tão pesado
que fantasiava outros tantos sábados de algumas horas de vida.