terça-feira, 21 de abril de 2009

Sem acertos



Poderíamos estar perdidos agora, num outro planeta, em uma outra esquina desconhecida, noutra cidade perdida, prontos, sempre prontos, deixando-nos um ao outro bonito, prontos.
Eu falhei nessa tarefa como ninguém jamais ousou querer falhar. Deixe-me esdrúxulo, inútil, a banca rotas, servil. Quanta poeira cabe em mim ainda? quem é que vai saber, quem é que vai querer saber?
Errei. Tenho dívidas para com todos, sou o mais endividado, por isso, pintei-me de roxo, quis gozar o que só eu tinha para gozar. O erro. O erro foi minha tinta, o roxo meu perdão para com todos. Peço desculpas, quero perdão.
Quando pintei pela última vez o meu rosto falido, sai para as ruas, essas mesmas ruas que todos conhecem, que a todos comporta, em que todos andam. Falhei, quis falhar, mas quero perdão, porque preciso sentir que sou o errado, o servo dos servos, o homem com a cara roxa de culpa, que inverteu a máscara só para poder ser imperfeito, calunioso, dúbio, querendo o lamento alheio. Quero pedir perdão, mas, não quero ser perdoado! Não devo nada! E, se devo, devo somente a mim mesmo, devo por esse atraso, essa coragem que nada compra e que tudo desmancha.
Falhemos todos! Vivamos todos! Despi-me, cuspi em minha cara, apanhei com minhas próprias mãos, só assim pode ser a vida, só assim e mais de nenhum outro jeito. Esqueçamos a coragem, esse monstro tortuoso. O caminho a seguir? Nenhum! Mas, se houver um caminho, ele deve ser aquele que nos leve para um outro planeta, uma outra esquina alheia, uma outra cidade perdida, então, cheios de erros, dívidas, inutilidades, vicissitudes, faremos um ao outro bonitos. Estética reversa! quanta precisão há no desgosto que não há na euforia passageira, quanta sofreguidão há naquele que precisa do perdão. O endividado e servo, é mais humano, mais barato, mais estático, ele sabe que não pode avançar, mas, ainda sim, anda como quem só sabe ter sido feito para caminhar.
Caminho. Caminho em uma só estrada, vou indo assim de cara roxa, marcada, doída, assim, cheio de erros, porque errar é não ter medo, falhar é movimento na medida em que a euforia que é o verdadeiro hiato de toda uma vida útil, corajosa, majestosa.
Sumam todos os heróis, são falsos! Querem-me lá cheio de imponência, orgulho! Eu, quero a mim mesmo baixo, escarrado, machucado. Não retesei o arco, e, para quem retesou e sonha em retesar, sumam da minha frente ou dêem a cara à roxo!
Perdão por não estarmos naquele planeta, naquela outra esquina estranha ou, noutra cidade perdida. Perdoa-me sem querer perdoar, ou, junte-se a mim. Cara pintada, endividado e falido.
Fui desde sempre aquele que errou e não teve medo, e por não ter medo, viveu certo, amou, chorou, e sentiu!

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