Quanto à minha mala de viagem, não sei o que havia nela. Ela era azul, de um azul envelhecido, com alças longas, também desgastadas. Pesava muito, e eu, tinha que carregá-la nas mãos, às vezes, arrastava-a no chão. Fomos para todos os lugares, conhecemos todas as virtudes e todos os vícios, vimos todos os rostos e todas as pessoas que poderíamos ver.
Abrir essa mala, significaria querer vislumbrar o que foi colocado nela há muitos anos atrás, significaria mexer no que está intocado, imóvel, dormente. Não lembro o que há dentro dela, talvez, um mundo de outros tempos, talvez, algumas roupas que já não me servem mais, ou ainda, qualquer coisa que naquele tempo parecesse demais valioso para mim, mas, que hoje, talvez não tenha valor nenhum. O tempo mata em nós essa idéia de valor, de apego e apreço pelas coisas e pelas pessoas. Ele inverte papéis, o que outrora me fazia rir, hoje, nesse exato momento pode me fazer chorar ou, simplesmente não me fazer sentir nada. Isso é o que há de pior. Não sentir nada é como ver retratos que aos poucos vão amarelando e sumindo da foto, e por fim o que sobra, é só essa moldura tosca, guarnecida de valor nenhum, por isso, nunca me apeguei a nada, por isso, nunca quis ver o que coloquei dentro dessa mala. Tenho medo das mudanças, não suportaria sentir essa inversão de papéis, ainda mais, não suportaria lembrar do que já esqueci.
Sempre nos esquecemos das coisas, não importa o quanto elas nos tenham marcado. Não esquecemos das coisas por maldade, elas apenas somem como que sabendo que precisam dar espaço para novas coisas, e estas novas coisas também sumirão no devido tempo delas de sumirem e de serem esquecidas por nós. Se há alguma coisa de mal em mim, é o fato de eu ter sido feito para esquecer. Logo, se amo alguma coisa de fato, amo incondicionalmente o tempo, mesmo não querendo.
Essa minha mala me ensinou tudo o que sei. Não a abro, pois, quero deixar o que guardei intocado, seja lá o que estiver lá dentro, não quero esquecer, e, para não esquecer, basta que eu não abra e acorde as coisas que nela estão guardadas. Deveríamos guardar tudo dentro de malas, aprisionar as coisas até o momento em que deixaremos de ser. Quanto à mim, fiz isso! Aprisionei coisas que não quero deixar escapar.
Para não esquecer das coisas, nas mais das vezes, é preciso deixá-las de lado como que escondidas secretamente no fundo de alguma mala, pois lá dentro elas estarão salvas, novas, sempre novas, porque o que envelhece somos nós, nossas lembranças e nossos apreços que aos poucos deixam de ser apreços para se tornarem qualquer coisa sem valor nenhum.
Por enquanto, seguimos constantemente ali, lá e cá, visitando pessoas, conhecendo lugares, sentido e arquejando no tempo, mas, quando eu estiver livre dele, desse mal dos homens, vou abri-la e, com certa comoção que ainda não sei como será, as coisas que nessa mala hoje estão aprisionadas sairão dançando, e eu, as seguirei dançando também nessa euforia que é o para sempre.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)



0 comentários:
Postar um comentário