Boécio, em seu livro A Consolação da Filosofia, sobretudo o que tange o Livro V, abordará novamente o problema da necessidade e da contingência, dentro dos eventos futuros. O problema, outrora, já havia sido levantado em seu comentário do Peri Hermeneias de Aristóteles*.
Antes de focarmo-nos necessariamente no problema da necessidade e da contingência, será preciso buscar algumas definições, tais como: acaso, destino e providência, visto que estas definições serão intrínsecas no decorrer do Livro V, e no decorrer deste trabalho.
A Consolação da Filosofia, um diálogo entre Boécio e a Filosofia, buscará responder como já dito acima, o problema da necessidade e da contingência nos eventos futuros. No início do Livro V, Boécio indaga à personagem Filosofia o que ela tem a dizer a respeito do acaso. Lemos:
“I want to know whether you think there is such a thing as chance, and what it is.” (BOÉCIO, Livro V, p. 116)
[1].
A Filosofia na prosa I, do Livro V, definirá o acaso, como um certo acontecimento inesperado, resultado de uma somatória de circunstâncias, que aparece no meio de ações realizadas com uma finalidade precisa, deste modo, o casus (acaso), não pode ser um evento fortuito, sem conexão de causas, pois como dirá a Filosofia, tudo o que existe está em uma relação de interdependência. Com efeito, se Deus obriga todas as coisas às suas leis, não poderia haver lugar para o acaso, e como do nada, nada provém, dirá a Filosofia que o acaso não existe, ou seja, é uma palavra sem sentido. Há certo ordenamento inevitável das coisas, o acaso, então é definido como um ato que tem causas, cujas origens por nós são desconhecidas.
Destarte, o que atestamos na natureza, são confluências de casos, cujas causas por nós, são desconhecidas. Diz a Filosofia:
“We may therefore define chance as an unexpected event due to the conjunction of its causes with action which is done for some purpose. The conjunction and coincidence of the causes is effected by that order which proceeds by the inescapable nexus of causation, descending from the fount of Providence and ordering all things in their own time and place.” (BOÉCIO, Livro V, p. 117)
[2].
O acaso, definido como este encadeamento inevitável, procede do inescapável nexo da causalidade, e tem como fonte a Providência, aquela que ordena todas as coisas em seus lugares e tempo.
Se seguir o ordenamento das coisas é inevitável, o acaso, portanto, não passa de uma palavra cujo significado é vazio, há, por conseguinte, liberdade nas ações humanas, ou estas ações também estão condicionadas?
Depois de definido o acaso, Boécio, na prosa II, pergunta, por conseguinte, se é possível existir algum resquício de liberdade nas ações humanas, ou o encadeamento do destino também abrange os movimentos das deliberações humanas. A Filosofia, responderá que o livre-arbítrio existe, pois, o ser humano é dotado de razão, logo, nenhum ser dotado de razão poderia existir se não possuísse a faculdade de julgar. Portanto, todo ser que é racional, é dotado de livre-arbítrio, todo ser racional é necessariamente livre.
É interessante salientar, que no decorrer do diálogo da prosa II, a Filosofia atenta dizendo que a faculdade de dizer sim ou não, é válida para todos os seres dotados de razão, mas que nem todos os seres possuem esta faculdade na mesma proporção. O ser humano é necessariamente mais livre quando contempla a inteligência divina, menos livre quando se apega às coisas corporais, e menos livre ainda quando se liga à carne.
A Providência, ordena tudo àquilo que estará relacionado com cada ser livre, de acordo com seu mérito, segundo o desfecho da prosa II, ou seja, a natureza está organizada segundo o mérito de cada um, pois, Deus, predestina às coisas que cada um vai precisar para sobreviver. Este ordenamento da natureza é a providência de Deus
[3]. Lemos:
“Even so, this is visible to the eye of Providence as it looks out at all things from eternity and arranges predestined rewards according to each man´s merit.” (BOÉCIO, Livro V, p. 119)
[4].
A noção de Providência, é explicitada na prosa III, quando Boécio diz que se Deus conhece todas as coisas de forma prévia, como é possível que o livre-arbítrio possa existir, pois, segundo ele, estas duas afirmações são contraditórias e incompatíveis. Na medida em que Deus prevê tudo e por isso não pode se enganar de forma alguma, tudo se produz conforme a Providência previu. Não poderia haver deste modo, livre-arbítrio nas ações humanas, na medida em que ela (a Providência) tem um conhecimento eterno e prévio de tudo. Destarte, as ações e as vontades do homem, não seriam livres, porque já teriam sido previstas pela Providência que não pode se enganar.
Boécio segue dizendo que, se os eventos podem ir numa direção diferente daquela que foi prevista, não haveria, por conseguinte, presciência segura do futuro, mas antes, apenas uma opinião incerta, e segundo ele, a opinião incerta não pode vir de Deus. Portanto, segundo Boécio, a presciência de Deus acerca dos eventos que ainda não ocorreram é certa, pois, uma vez que certo evento tenha sido previsto, é necessário que este certo evento venha a se realizar necessariamente.
Dito isso, Boécio faz uso de um exemplo para ilustrar o que já fora dito acima, a saber; quando um acontecimento é previsto, ele deve necessariamente ocorrer, mesmo que a previsão divina pareça não atribuir aos eventos futuros à necessidade de se realizarem. O exemplo diz:
“If a man is sitting, it is necessary that the opinion which concludes that he is sitting is true; and on the other hand, if the opinion about the man is true, because he is sitting, it is necessary that he is sitting. There is necessity, therefore, in both statements; in the one that the man is sitting, and in the other that the opinion is true. But it is not because the opinion is true, that the man sits; rather, the opinion is true because it is preceded by the man´s act of sitting.” (BOÉCIO, Livro V, p. 120)
[5].
Em ambos os casos, diz Boécio, há necessidade, pois, no primeiro caso alguém está realmente sentado, e no segundo, porque a opinião é certa. É necessário que os acontecimentos acerca do futuro sejam previstos por Deus, e que ocorram necessariamente, pois, uma vez previstos por Ele que não pode se enganar acerca de sua presciência, tais eventos, deverão ocorrer de maneira necessária, eliminando, por conseguinte, o livre-arbítrio e a liberdade das escolhas humanas.
O filósofo diz que pensar a ocorrência dos eventos temporais como sendo causa da eterna presciência é absurdo. Por fim, se tudo o que foi previsto deve ocorrer de modo necessário, caso a presciência que versa acerca dos eventos futuros fosse incerta, até mesmo os acontecimentos que poderiam não ocorrer, teriam de produzir-se necessariamente, e Deus se enganaria sobre eles. Segundo Boécio, a inteligência divina não pode errar quando prevê os acontecimentos sobre o futuro.
Resulta disso, que a liberdade humana é suprimida pela Providência, e todos os nossos atos são previstos e condicionados por ela, logo, não haveria mais o castigo, próprio das más ações, nem a recompensa, fruto das boas ações. O homem seria governando por Deus, e, por conseguinte, todas as suas ações também.
Na prosa IV, o caminho da solução deste problema acerca da necessidade da presciência que versa sobre os futuros, e que, por conseguinte, atenta contra a liberdade e o livre-arbítrio dos homens, começará a ser resolvido. A Filosofia relativa a epistemologia clássica, onde o ato de conhecer depende da coisa a ser conhecida, e concebe uma nova Teoria do Conhecimento, onde o foco passa a estar no sujeito que conhece, ou seja, em sua capacidade inteligível de conhecer.
A Filosofia faz uso de um exemplo, para poder ilustrar que a presciência sobre os acontecimentos futuros não impõem necessidade alguma nestes eventos. Ela diz:
“(...) we see many things before our eyes as they happen, like the actions we see charioteers performing in order to control and drive their chariots, and other things of this sort. But no necessity forces any of them to happen in this way (…)” (BOÉCIO, Livro V, p.125)
[6].
Por conseguinte, o fato de estarmos olhando os movimentos do cocheiro ao manobrar sua carroça, não implica em dizer que tais movimentos estão sendo condicionados pelo simples fato de os estarmos observando. Desta maneira, assim como o conhecimento do presente não torna necessário os acontecimentos que se realizam, deste mesmo modo, a presciência do que irá acontecer, também não imprime necessidade alguma ao futuro. Logo, existem acontecimentos que irão se produzir sem vínculo algum com a necessidade. O núcleo do problema, portanto, está em saber se é possível conhecer previamente os acontecimentos cuja realização não são necessárias.
Nestes termos, podemos voltar a falar da inversão epistemológica que é realizada na prosa IV, onde o foco do conhecimento passa a estar todo no sujeito, e em sua capacidade inteligível. São identificados quatro tipos de conhecimentos; a saber: a Inteligência, a Razão, a Imaginação, e a Sensação.
A inteligência é o conhecimento direto, perfeito e total das coisas. Distingue o absoluto por uma única visão do espírito, e não precisa dos outros quatro tipos de conhecimento. Faz-se notório compreender que as faculdades superiores compreendem as subalternas, mas estas, jamais podem alcançar o nível das que lhes são superiores. Destarte a inteligência é uma intuição que apreende o todo de uma só vez, e cabe a Deus.
A razão, faculdade própria dos homens, conhece as idéias gerais, ultrapassa a imaginação que conhece as formas, e também os sentidos que conhecem a matéria. No entanto, a atividade cognoscível de Deus é diferente da nossa, há um conhecimento intuitivo de sua parte.
Como já dito acima, o conhecimento humano, depende exclusivamente de suas faculdades e não da natureza própria das coisas. Lemos:
“So you see, in their manner of knowing they all use their own capacity to know rather than the capacity to be known of the objects of their knowledge. And this is quite proper. For since every judgement is an action of the one who judges, it is necessary that each should perform its works by its own power and not another´s.” (BOÉCIO, Livro V, p. 128)
[7].
Ou seja, se todo juízo é um ato daquele que o pronuncia, o conhecimento está no sujeito e não no objeto externo a ele.
À medida que o conhecimento se volta para a capacidade inteligível do sujeito, o que outrora era um problema acerca dos futuros contingentes, se torna vazio, pois, Deus apreende tudo através da inteligência e está fora do tempo. Graças à mudança epistemológica que Boécio produz nas prosas IV e V, podemos entender que o problema dos futuros contingentes não existe. Deste modo, podemos explicar como Deus vê os futuros sem imprimir necessidade alguma neles.
Como já fora dito mais acima, o divino está fora do tempo, Deus se encontra em um presente eterno, e por meio de sua intuição imediata e absoluta do todo, ele apreende tudo neste presente eterno, e, por conseguinte, não impõem necessidade alguma nos acontecimentos. Podemos dizer então, que Deus não prevê, mas sim que Deus vê tudo o que acontece, pois, Ele está fora do tempo, está, como já dissemos, em seu presente eterno.
Boécio defini a eternidade como a posse completa, simultânea e perfeita de uma vida ilimitada. Deus que é eterno, não está inserido no tempo, deste modo, ele vê todas as coisas em seu presente eterno, e por essa razão, nada há que escapa de sua intuição, que apreende o absoluto de uma única vez.
O fato de Deus ver é uma necessidade certa, e isso, no entanto, não imprime necessidade alguma sobre as coisas. O problema anterior suponha que Deus conhecia as coisas antes delas acontecerem, contudo, percebemos agora que a inteligência divina não imprime necessidade alguma nas coisas, e Deus, em seu presente eterno, vê as coisas futuras no presente. Lemos:
“(...) and since the state of God is ever that of eternal presence, His knowledge, too, transcends all temporal change and abides in the immediacy of His presence. It embraces all the infinite recesses of past and future and views them in the immediacy of its knowing as though they are happening in the present.” (BOÉCIO, Livro V, p. 134)
[8].
A ciência de Deus, não depende do futuro como atestará a Filosofia, pois, se queremos pensar o conhecimento prévio que Deus tem das coisas, é melhor que pensemos este conhecimento não como um conhecimento prévio acerca dos eventos futuros, mas, como um conhecimento que se dá por sua presença interminável e eterna. Por conseguinte, tal conhecimento deve ser chamado de previdência, e não de previsão.
Logo, Deus conhece todas as coisas, pois, está em seu presente eterno, deste modo, o conhecimento divino não muda a natureza das coisas, Ele simplesmente as vê no presente, e aqui, no futuro, elas ocorrerão da mesma forma como foram vistas, e este ato de olhar, não imprimi necessidade alguma nelas.
Ainda seguindo a prosa VI, Boécio apontará para dois tipos de necessidade; a saber: a necessidade absoluta, ou seja, as leis da natureza, que, por exemplo, sujeita os homens à morte, e uma necessidade condicionada, por exemplo, quando sabemos que um homem está caminhando, e ele realmente está.
Ora, Deus vê como presente os acontecimentos futuros que são resultado do livre-arbítrio humano, destarte, esses acontecimentos, diante do ponto de vista do olhar divino, tornam-se necessários e são submetidos a esse conhecimento intuitivo que Deus possui, no entanto, considerados em si mesmos (os acontecimentos), não perdem a liberdade de sua natureza.
Portanto, nós não estamos errados, ao dizer que se vemos as coisas da perspectiva divina, são necessárias, mas consideradas nelas mesmas, estão livres de qualquer vínculo com a necessidade
[9]. A providência divida é necessária na medida em que não podemos escapar de seu olhar sempre presente, mas, Deus, em seu eterno presente, não implica necessidade nos acontecimentos, uma vez que, Ele apreende a totalidade de tudo com sua inteligência divina.
Deus vê o futuro como presente, abarca a totalidade das ações humanas em um só golpe de vista, e este conhecimento divino é necessário, mas tal conhecimento não interfere nos acontecimentos; na liberdade e no livre-arbítrio dos homens.
Bibliografia:
BOETHIUS, The Consolation Of Philosophy. Tradução de Victor Watts. New York, ed. Penguin, 1999.
[1] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
*O comentário de Boécio acerca do Peri Hermeneias de Aristóteles, se encontra em: Boehius, On Aristotle´s On Interpretation 9. Ed. Cornell University Press, New York.
[2] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
[3] Boécio, quando aplica o termo providência, do latim providentia, quer significar uma Inteligência que organiza as coisas, por isso, este termo se aplica a Deus.
[4] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
[5] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
[6] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
[7] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
[8] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999.
[9] BOÉCIO, The Consolation Of Philosophy, translated by Victor Watts , Penguin Classics, New York, 1999, pg. 136.