terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lamento da existência

À Tunica



Jamais pude escapar do destino, pensou ela calada, intacta no banco. Sabia que havia levado a vida sempre com a coragem de quem no fundo, têm medo de perder.
Ela já não sabia mais o que fazer. Aquele sentimento amargo, se confundia com a saliva em sua boca. Ela toda se confundia com o banco em que estava sentada. Talvez tivessem se tornado uma só coisa, talvez, nunca estivessem lá.
Será que existo? Perguntava a si mesma em voz alta. Ela sabia que existia, mas queria achar meios para negar sua existência inexoravelmente finita, precoce e fugaz.
Sim, é isso! Pensou ela.
Eu não quero mais existir da forma como vinha existindo. No fundo, só existimos para nós mesmos, e nada mais.
Aquilo, não era suficiente, pois, ela sabia, com quem sabe um segredo, que jamais poderia existir de outra maneira se não aquela.
Não! Tenho certeza que posso mudar minha forma de ser para o mundo, pensou consigo mesma, enchendo novamente a alma de esperança.
Posso existir como e quantas vezes eu quiser existir! Posso ser o que eu quiser ser!
Parou de repente de pensar. Ficou mais imóvel do que já estava, permaneceu ereta e rígida. Mirou sem acerto as pessoas que passavam de um lado para o outro, como se realmente existissem de verdade.
Quebrou o silêncio mórbido da alma, pensando que se fingisse que existia, talvez pudesse ser como todas aquelas pessoas, que por ela passavam.
É impossível. Como posso não existir? Sinto o sol tocar minha pele, sinto o frio do banco, o vento, sinto até o ar que enche meus pulmões para que eu posso respirar e...e...e existir! Sim! Eu existo para mim mesma, sei que existo, só preciso convencer as pessoas da minha existência, falou gritando, como que querendo que alguém olhasse para ela.
No entanto, ninguém à olhou. Mas, ela continuava mirando as pessoas, ao mesmo tempo em que se perguntava como era possível que elas existissem.
Sim, disse ela empolgada. Eu existo para que os outros tenham certeza de que também existem. Todos existimos quando miramos a existência do outro! Se aquele lá existe, falou apontando com a mão esquerda para um senhor que passava, eu também existo! Todos existimos e somos solidários as existências alheias!
Mais contente com sua descoberta, ela se deixou deitar no banco, fechando os olhos, e levemente um sorriso foi se desabrochando no seu rosto.
Quem eu quero enganar com tudo isso? Pensou rindo para si mesma. Não existo, porque não existe ninguém que possa qualificar minha existência! Nunca existi, mas, ao contrário, fiz com que várias pessoas soubessem de suas próprias existências. No fundo, eu realmente nunca soube o que era existir, e se soubesse, acho que seria ainda pior para mim. Existir para a morte é um absurdo! Prefiro continuar como estou, assim, escondida da finitude, própria daqueles que existem...
Permaneceu deitada de olhos fechados, até a noite cair, o calor passar e as pessoas irem todas embora. Permaneceu lá, imóvel, complacente e feliz. Ela não tinha mais medo nenhum, mais angustia nenhuma, porque ela, ao contrário de todos, sabia que existir levava à morte...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Mar sem fundo

Teu sorriso,
o mais secreto bailar dos meus sonhos,
se faz mar dentro de mim.
Quando na ponta da praia o Sol começa a nascer,
teus olhos, há muito já brilhavam.
Quando no mar, parte a canoa solitária,
tuas mãos, há muito já se despediam.
Quando na encosta da praia
vai indo embora o dia,
colorindo o céu-arrebol, a noite que chega,
traz consigo o porvir
das minhas lágrimas tão lágrimas,
traz o gosto d'sal enleado na boca,
a perda,

por saber-me longe de ti.






segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Porvir...

Depois de atravessar a praia toda, parou e sentou-se na areia molhada, espiando os caranguejos que cavavam buracos à beira-mar. Ainda embriagado, se recordava da noite anterior. Sabia que havia bebido além de todos os limetes, porque seu corpo todo, ainda exalava um cheiro de éter.
Na boca, alguns hematomas revelavam a inexóravel finitude das ações humanas, deixando transparecer a sutil libidinagem da noite de ontem.
Tocou um dos bolsos da calça, tirando um maço quase vazio de cigarros. Olhou lá adiante a ressaca do mar, tapando os olhos com a mão esquerda, por causa do Sol que começava a nascer.
Queimou um fósforo, pegou um dos cigarros, levou-o à boca, mas não teve tempo de poder acendê-lo . Caído ao chão, o mar que vinha e ia eternamente em fuga, molhava parte de suas pernas longamente estendidas.
O Sol, ainda nascia, os caranguejos, ainda cavavam, e o mar, ainda batia na encosta da praia, molhando a areia que mais tarde, deixaria de estar úmida.

sábado, 15 de novembro de 2008

Para poder...

Para
poder te abraçar,
esperei
por entre os outonos e as primaveras pálidas
sentado à esquerda de mim mesmo...
mas,
fui e passei caindo
como as folhas que caem e passam,
quando nelas, sopra o vento.
Esperei então, nos sóis de verão
teu corpo para lambusar o meu;
e como gota de chuva
cai ao chão,
a terra molhei
fertilizando as outras folhas
que por não terem caído
perduravam as lembranças
há muito intocadas...







domingo, 9 de novembro de 2008

Necessidade e Contingência na Leitura de Boécio acerca do Peri Hermeneias de Aristóteles




Necessidade e Contingência na leitura de Boécio acerca do Peri Hermeneias de Aristóteles



Antes de articular o capítulo IX do Peri Hermeneias que se encontra no conjunto de textos intitulado Órganon escrito por Aristóteles ao comentário de Boécio[1], principiemos por explicar de forma breve o conteúdo do Peri Hermeneias e os capítulos que vão do I ao IX, para que possamos entender a problemática que se instaura sobre os futuros contingentes.
Aristóteles no Peri Hermeneias buscará compreender a relação entre a linguagem e o pensamento como tradutora ou intérprete deste, portanto o assunto fundamental do autor aqui é formular os fundamentos do silogismo e os modos de operar da razão, ou seja, os modos pelos quais exprimimos aquilo que se encontra no âmbito da verdade dialética e da verdade científica. A hermeneía é, portanto o ato de exprimir o pensamento mediante a palavra, uma vez que a linguagem exprime o pensamento que por sua vez exprime o Ser.
Aristóteles definirá o nome, o verbo, a sentença e depois explicará o que entende por negação, afirmação e proposição. O nome[2] é uma convenção sem referência ao tempo que exprime as essências, o verbo[3] transmite um significado particular e faz referência ao tempo, onde nenhuma parte por si mesma tem significado. É importante salientar que o verbo também traduz as essências. A sentença[4] é uma fala dotada de significação cujas partes tomadas separadamente também apresentam sentido. Podemos chamar de proposições somente aquelas que encerram verdade ou falsidade em si mesmas. Presenciamos desta maneira dois tipos de proposição, a declarativa e a não-declarativa. As proposições declarativas (lógos apophantikós) implicam verdade ou falsidade, já as proposições não-declarativas não implicam verdade ou falsidade. O lógos (proposição/ enunciado) exprime o pensamento, que, por sua vez, exprime o Ser.
Deste modo podemos entender a proposição como formada por nomes e verbos, onde presenciamos dois tipos de proposição, ou seja, as proposições declarativas que implicam em verdade ou falsidade e as proposições não-declarativas que não implicam verdade ou falsidade. Na proposição declarativa nós ainda temos as múltiplas que se dividem em proposição declarativa múltipla por si e proposição declarativa múltipla por conjunção, e as proposições elementares, que se dividem em elementares por si e elementares por conjunção. A proposição elementar é unitária, ou seja, ela afirma diretamente o ser, um aspecto do ser, e como já dito acima pode ser dividida em proposição elementar por si, que está na base do mecanismo dos perfeitos silogismos, e a proposição elementar por conjunção, base do mecanismo dos silogismos modais que se referem aos modos de apresentação do ser. Tanto a proposição elementar por si como a proposição elementar por conjunção operam por oposições, ou seja, afirmam ou negam algo, destarte dizem sobre a verdade ou a falsidade de algo.
Depois desse brevíssimo resumo sobre o movimento do Peri Hermeneias, já é possível partir para o capítulo IX, levantar a problemática feita por Aristóteles, como sua respectiva resolução, para depois podermos entender o comentário de Boécio sobre o texto aristotélico, e a problemática instaurada pelo filósofo medieval.
A questão sobre os futuros contingentes se inicia no capítulo IX, onde é feita uma análise de sentenças que estando no futuro podem, portanto, ter valores de verdade diferentes. A contradição (antiphasis) se apresenta como um par de proposições no qual uma afirma o que a outra nega, pois o nosso modo de pensar sempre opera por contradição. Aristóteles dirá:


“For if every affirmation or negation is true or false it is necessary for everything either to be the case or not to be the case. For if one person says that something will be and another denies this same thing, it is clearly necessary for one of them to be saying what is true – if every affirmation is true or false; for both will not be the case together under such circumstances.” (ARISTÓTLES, numeração marginal 18b1-37)
[5].


Seguindo a mesma lógica que perdura todo o Peri Hermeneias, Aristóteles neste trecho, dirá que somos levados, portanto, a concluir que todas as afirmações e todas as negações têm que ser ou verdadeiras ou falsas, logo se é assim, nada há que aconteça por acaso, portanto não haverá contingência, os acontecimentos se produzirão por necessidade, pois toda proposição particular afirma ou nega algo, como já havia dito Aristóteles outrora, e no futuro essa lógica permanecerá a mesma. Aristóteles opõem as palavras tüquê (contingente) e anagkê (necessidade), ou seja, as proposições particulares no futuro afirmam ou negam, dizem o verdadeiro ou o falso, por esta via temos que as proposições particulares no futuro impõem necessidade aos acontecimentos. Pelo pensamento, a linguagem pode definir os acontecimentos futuros que acabam se tornando determinados, pois, como já dissemos acima, a linguagem exprime o pensamento, que, por sua vez ,exprime o Ser. Logo, o fato de dizer que algo será verdadeiro ou falso determina o acontecimento. Se a linguagem exprime o Ser o futuro terá de ocorrer necessariamente. Indo mais além o simples fato de dizer que algo acontecerá ou não acontecerá já implica em um determinismo do futuro, o problema está em formular que algo acontecerá ou não acontecerá, para tal, é necessário que lembremos que Aristóteles não abandona o Princípio do Terceiro Excluído, segue-se um exemplo: Se eu disser que haverá uma batalha naval amanhã ou o seu contrário, não haverá uma batalha naval amanhã, apenas uma dessas sentenças poderá ser verdadeira; então, se eu disser que haverá uma batalha naval amanhã, ela deverá necessariamente ocorrer amanhã e sua contrária terá de ser necessariamente falsa e, por conseguinte não ocorrer. É necessário que lembremos que o Princípio do Terceiro Excluído exclui uma terceira possibilidade, logo, uma coisa só pode ser ou não ser.
Aristóteles, no entanto mostrará mais adiante o absurdo do determinismo fazendo uso de uma observação empírica onde ele dirá:


“For we see that what will be has an origin both in deliberation and in action, and that, in general, in things that are not always actual there is the possibility of being and of not being; here both possibilities are open, both being and not being, and consequently, both coming to be and not coming to be.” (ARISTÓTELES, 19a1-7)
[6].


Aristóteles rejeita o determinismo, pois, como ele mesmo afirma, estamos todos cientes, com base em nossas experiências empíricas, de que eventos futuros têm origem nas deliberações e ações, onde as coisas apresentam ato e potência, isto é, a possibilidade de ser ou a possibilidade de não ser. Fazem-se notórios aqui os conceitos de energheia (ato) e dynamis (potência). Portanto se as coisas podem ser ou não ser, os acontecimentos podem ocorrer ou podem não ocorrer, onde Aristóteles dará um exemplo:


“For example, it is possible for this cloak to be cut up, and yet it will not be cut up but will wear out first. But equally, its not being cut up is also possible, for it would not be the case that it wore out first unless its not being cut up were possible.”(ARISTÓTELES, 19a1-12)[7].


Portanto, eventos que são dotados de possibilidade podem ocorrer ou não ocorrer, deste modo, nem todos os eventos ocorrem por necessidade, não podemos dizer com certeza de um evento que ele ocorrerá ou não ocorrerá. Logo, as coisas que têm potência para ser, são distintas das coisas que são. Vale ressaltar novamente para que possamos evidenciar o problema dos futuros contingentes, que Aristóteles se mantém fiel ao princípio do terceiro excluído onde x é a ou x é não a, assim, uma terceira opção não existe. Os eventos se exprimem na linguagem, e as coisas não dependem da linguagem humana para ser ou para não ser[8], dirá finalmente o filósofo.
Boécio, comentando o Peri Hermeneias instaurará uma nova problemática, colocando a idéia de Deus, quando analisa o capítulo IX, pois, como será possível garantir a liberdade das ações humanas, sem que a Deus sejam negados poder, vontade e onisciência? O pensamento se expressa na linguagem e revela o Ser, mas isso dentro de um pensamento finito humano, mas quando pensamos em um Ser onisciente, que conhece tudo o que é e o que será, como resolver o problema do determinismo e do livre arbítrio? O problema dos futuros contingentes atinge uma outra dimensão quando concebemos um pensamento perfeito que não pode errar, ou seja, se para Aristóteles o problema de conceber um Ser cujo pensamento fosse onisciente e perfeito não foi colocado em seu texto e ele, por conseguinte, resolve o problema das proposições no futuro dizendo que a linguagem humana não exprime o Ser, mas é o Ser que se exprime pela linguagem, pois não podemos falar de eventos que ainda são em potência, Boécio amparado a uma idéia de Deus onisciente e perfeito, elabora essa nova problemática com bases no capítulo IX do Peri Hermeneias.
Boécio confirma a onisciência de Deus, onde onisciência quer dizer perfeição, portanto se descarta a possibilidade do erro, logo se Deus conhece algo, esse algo tem de ser ou de não ser e se Deus conhece que algo será então algo terá que ser. Temos desta forma, um novo problema em relação ao futuro, amparado na idéia de um Ser cujo pensamento é onisciente e perfeito, onde lemos:


“If someone says that the necessity of outcomes is a consequence of God´s knowledge of future things, he surely will have the tables turned on him: [viz.] that God cannot know all things if all things do not occur by necessity. For if the necessity of outcomes follows God´s knowledge – [i.e.] if there is no necessity of outcomes [themselves] – divine knowledge is prevented; and who is so perverted in spirit by impious reason as to dare to say such things of God?” (BOÉCIO, 10-17)
[9].


Como colocar em harmonia a necessidade que aparentemente é própria da onisciência e perfeição com a contingência das escolhas humanas? A saída de Boécio é corrigir o problema, e pensar a possibilidade de haver onisciência e eventos não necessários. Destarte, ele dirá que existem eventos necessários e eventos contingentes, e Deus conhece ambos, pois se a contingência não fizesse parte de seu pensamento onisciente, ele seria imperfeito, uma vez que só poderia conceber as coisas como necessárias, e lhe escapariam as possibilidades da contingência, negando desta forma sua capacidade onisciente. Boécio dirá:


“For if God knows that all things are going to come about necessarily, he is mistaken in that knowledge of his, since not all things come about necessarily, but some contingently. Therefore, if he knows regarding the things that are going to come about that they are going to come about necessarily, he is deceived as regards his own providence!” (BOÉCIO, 5-7)[10].


Deus conhece os futuros não como eventos necessários, mas como eventos contingentes, pois ele seria imperfeito caso não pudesse conceber eventos contingentes, e ele tem completo conhecimento das ações e dos conteúdos que se passam na razão humana para a escolha dos caminhos dados por ele. Para Boécio, o futuro é dado por Deus de forma contingente, e cabe somente a ele entendê-lo, pois a razão humana não pode falar do que ainda irá acontecer. Dito isso, o problema do livre arbítrio é neste comentário do Peri Hermeneias acrescido da idéia de um Ser onisciente e resolvido pelas próprias características desse Ser, que como já dito mais acima, concebe o futuro como contingente embora Ele (Deus), tenha completo conhecimento sobre o que acontece na razão própria dos seres humanos e suas ações.
Faz-se notório no comentário de Boécio um outro argumento que faz com que a contingência exista, a saber, que a deliberação é algo que os seres humanos têm por natureza e que se tudo fosse governando por uma necessidade, ela (a deliberação) seria em vão, mas como afirma o texto, a deliberação não é vã, pois deliberar é algo natural que existe nos seres humanos. Lemos:


“Nothing that is by nature is in vain, but deliberating is something that human beings have naturally. But if necessity alone will have mastery over actual things, deliberation is for no reason. Deliberation is not vain, however, since it is by nature.” (BOÉCIO, 12-15)[11].


Caso todos os eventos fossem necessários, a vontade de Deus não produziria nada, uma vez que tudo seria governando pela necessidade, como resultado disso dirá Boécio, teríamos que somente a necessidade de Deus ordenaria as coisas excluindo sua vontade divina e anulando o livre arbítrio das escolhas humanas.



Bibliografia


ARISTÓTELES. On Interpretation. In: The Complete Works of Aristotle. Vol. I. Ed. Princeton University Press, New Jersey, 1995.

BOÉCIO. Boethius On Aristotle´s On Interpretation 9. Ed. Cornell University Press, New York,.

ANGIONI, Lucas. Introdução à Teoria das Predicações em Aristóteles. Ed. Unicamp, Campinas, 2006.

[1] Comentário encontrado em: Boehius, On Aristotle´s On Interpretation 9. Ed. Cornell University Press, New York.
[2] ARISTÓTELES, De Interpretatione 16ª1-20, capítulo II.
[3]ARISTÓTELES, De Interpretatione 16b1-6, capítulo III.
[4]ARISTÓTELES, De Interpretatione 16b1-27, capítulo IV.
[5] ARISTÓTELES. “De Interpretatione”. In: The Complete Works of Aristotle. Ed. Princeton University Press, ano: 1991. New Jersey. Organizado e editado por Jonathan Barnes.
[6] ARISTÓTELES. “De Interpretatione”. In: The Complete Works of Aristotle. Ed. Princeton University Press, ano: 1991. New Jersey. Organizado e editado por Jonathan Barnes.
[7] ARISTÓTELES. “De Interpreatatione”. In: The Complete Works of Aristotle. Ed. Princeton University Press, ano: 1991. New Jersey. Organizado e editado por Jonathan Barnes.
[8] ARISTÓTELES, De Interpretatione 18b-36.
[9] BOÉCIO. “On Aristotle´s On Interpretation 9”.Ed. Cornell University Press, New York, pg. 170.
[10] BOÉCIO. “On Aristotle´s On Interpretation 9”.Ed. Cornell University Press, New York, pg. 171.
[11] BOÉCIO. “On Aristotle´s On Interpretation 9”.Ed. Cornell University Press, New York, pg 167.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

On Aristotle´s On Interpretation 9

Tradução caseira do comentário de Boécio acerca do Peri Hermeneias de Aristóteles
(On Aristotle´s On Interpretation 9) –

Página 167 – numeração marginal 10-25

Aristóteles na verdade, nos mostra acima que quando definimos a verdade nas proposições acerca do futuro, elas destroem a contingência (as chances). Agora, contudo, por meio de uma forte argumentação, ele traça o caminho em que essa mesma verdade definitiva acerca do futuro e as proposições contingentes destroem a faculdade da escolha deliberada, dizendo que caso alguém invente algo sobre o futuro (como por exemplo) dizer uma declaração contraditória, está, por conseguinte, terá de ser ou verdadeira ou falsa, onde todas as coisas impossíveis desta declaração inventada necessariamente deverão ocorrer.
Mas, nós temos seguindo os passos de Pórfiro, quando iniciamos está disputa acerca das exposições de idéias, onde já mencionamos o que ele havia dito, quando disse antes sobre “no que diz respeito (aquelas que são) singulares e futuras” (18ª33), sendo por esta razão, de que a compreensão desta disputa acerca das exposições de idéias, é fácil caso esses objetos de estudo sejam primeiro minuciosamente investigados em conexão com as proposições singulares. Tendo falado primeiro com grande cuidado acerca das proposições singulares, ele dará inicio a exposição das proposições universais expressadas universalmente acerca das contradições que são feitas em conexão com elas. Para isso ele diz: “se de toda afirmação e negação, tanto no que diz respeito àquelas que são ditas universalmente quanto as universais ou no que diz respeito àquelas que são singulares, é necessário que um dos opostos seja verdadeiro, mas o outro falso.” (18b226-9).

Página 167 – numeração marginal 5-15

Mas sobre aquelas proposições (proposições declarativas no futuro) que dizem respeito às coisas naturais que ainda precisam ser colocadas em existência e sofrem corrupção, não é necessário que (sua contrária) sempre seja uma verdadeira e a outra falsa.
Eu não rejeito nenhuma destas exposições colocadas aqui até agora, pois, no entanto, ambas estão fundadas em uma razão muito confiável.
Agora Aristóteles destrói cada interpretação que sozinha apresentam necessariamente (sem necessidade) o comando das coisas, eventos, ou os estados de afecção. Nada do que é por natureza é em vão, mas deliberar é algo que o ser humano por natureza apresenta. Mas caso haja apenas uma necessidade que opere sobre todas as coisas, a deliberação (escolha) não seria útil e nem teria razão para operar. Portanto, não pode existir uma necessidade que opere sobre todas as coisas. Agora a ordem de apresentação do problema é dita desta forma por Aristóteles: “Este, portanto, e outros como este, são os absurdos que ocorrem quando se fala das proposições no futuro” (18b26) – ou seja, que qualquer chance nas coisas reais são rejeitadas, e mais: que a possibilidade e a vontade associada a livre escolha são banidas.

Página 170 – numeração marginal 10-18

Deixemo-nos perguntar deste modo, contudo se Deus conhece todas as coisas futuras como necessárias, então estas coisas terão que ser necessariamente. Caso alguém diga que a necessidade de resultados é uma conseqüência do conhecimento de Deus acerca das coisas futuras, ele (Deus) terá certamente o jogo a favor dele, (mas), Deus não pode conhecer todas as coisas se todas as coisas não ocorrerem por necessidade. Por isso, a necessidade dos desfechos seguem o conhecimento de Deus – [i.e.], e se não houver necessidade de desfechos, o conhecimento é impedido; e quem é tão perverso no espírito por uma razão fraca, para ousar dizer esse tipo de coisas acerca de Deus? Mas talvez alguém possa dizer que o conhecimento das coisas futuras é próprio da natureza de Deus e que a fonte da necessidade sobre todas as coisas vem de Deus, e que se roubamos o conhecimento de Deus acerca do futuro e do conhecimento real das coisas futuras, ele não é Deus. Mas se, no entanto alguém disser que, isso deve ocorrer com sua natureza; enquanto ele se esforçar para mostrar que Deus sabe sobre todas as coisas (no futuro), ele estará também alegando que Deus falha ao conhecer todas as coisas. Caso alguém defenda que ele saiba que o número dois é um número ímpar, ele não sabe isso e particularmente falhará por saber isso, o que ele pensa e o que ele sabe, pertence não a uma capacidade, mas particularmente a uma incapacidade. Portanto, quem diz que Deus conhece todas as coisas necessariamente e que por está razão, as coisas necessariamente devem ser necessárias, por isso dizem que o conhecimento de Deus não pode conhecer coisas contingentes, mas somente necessárias. Deste modo se Deus conhece todas as coisas como necessárias ele erra em seu próprio conhecimento, uma vez que nem todas as coisas são produzidas por necessidade, mas algumas são contingentes. Portanto se ele sabe que todas as coisas virão como necessárias, ele está se enganando no que diz respeito a sua própria providência! Deus conhece os futuros não como eventos necessários, mas como eventos contingentes, de maneira que ele não ignora que eles possam ser diferentes. Todavia, Ele tem completo conhecimento sobre o que acontece na razão própria dos seres humanos e suas ações.
Assim sendo, se alguém diz que tudo ocorre por necessidade, é necessário também que roubemos de Deus a benevolência, pois neste caso sua vontade divina não produzirá nada, pois tudo seria governado pela necessidade, como resultado disso teríamos que somente a necessidade de Deus conferiria benefícios e não a sua própria vontade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Brevíssima nota sobre o Existencialismo

"L'existence précède l'essence"

"L'enfer, c'est les autres"

The Expiration

By John Donne

So, so, break off this last lamenting kiss,
Which sucks two souls, and
vapours both away ;
Turn, thou ghost, that way, and let
me turn this,
And let ourselves benight our
happiest day.
We ask none leave to love ; nor will
we owe
Any so cheap a death as saying,
"Go."
Go ; and if that word have not quite
killed thee,
Ease me with death, by bidding
me go too.
Or, if it have, let my word work on me,
And a just office on a murderer do.
Except it be too late, to kill me so,
Being double dead, going, and bidding, "Go."

domingo, 2 de novembro de 2008

Anatomia

robustos canhões
agridem a calma
do coração enleado
de inumeráveis sentimentos.

custosa chuva
cai caudal
constrangindo
a língua molhada.

ásperos ventos
levam o cheiro
da pele
que roça a memória indiscreta.

na anatomia do corpo
pulsa o ventrículo esquerdo do peito
a papila degusta o alimento que a boca mastiga
e o frio, arrepia fundo os pêlos na epiderme cravados.
"Se eu pudesse consolar cada dor do mundo, ainda sim não saberia consolar as minhas. O mundo é grande e eu sou pequenez de imagens. A música mais triste do mundo e a lágrima mais pesada dos olhos, falam pouco quando aos meus lábios chegam e se acomondam como hóspedes cansados da eterna viagem. Acho que se eu pudesse aliviar toda a dor do mundo eu não seria mais feliz por isso... Acho ainda mais, como quem acha com certeza que, se eu pudesse aliviar a dor de uma só pessoa, seria amado e saberia também amar eternamente."