Necessidade e Contingência na leitura de Boécio acerca do Peri Hermeneias de Aristóteles
Antes de articular o capítulo IX do Peri Hermeneias que se encontra no conjunto de textos intitulado Órganon escrito por Aristóteles ao comentário de Boécio
[1], principiemos por explicar de forma breve o conteúdo do Peri Hermeneias e os capítulos que vão do I ao IX, para que possamos entender a problemática que se instaura sobre os futuros contingentes.
Aristóteles no Peri Hermeneias buscará compreender a relação entre a linguagem e o pensamento como tradutora ou intérprete deste, portanto o assunto fundamental do autor aqui é formular os fundamentos do silogismo e os modos de operar da razão, ou seja, os modos pelos quais exprimimos aquilo que se encontra no âmbito da verdade dialética e da verdade científica. A hermeneía é, portanto o ato de exprimir o pensamento mediante a palavra, uma vez que a linguagem exprime o pensamento que por sua vez exprime o Ser.
Aristóteles definirá o nome, o verbo, a sentença e depois explicará o que entende por negação, afirmação e proposição. O nome
[2] é uma convenção sem referência ao tempo que exprime as essências, o verbo
[3] transmite um significado particular e faz referência ao tempo, onde nenhuma parte por si mesma tem significado. É importante salientar que o verbo também traduz as essências. A sentença
[4] é uma fala dotada de significação cujas partes tomadas separadamente também apresentam sentido. Podemos chamar de proposições somente aquelas que encerram verdade ou falsidade em si mesmas. Presenciamos desta maneira dois tipos de proposição, a declarativa e a não-declarativa. As proposições declarativas (lógos apophantikós) implicam verdade ou falsidade, já as proposições não-declarativas não implicam verdade ou falsidade. O lógos (proposição/ enunciado) exprime o pensamento, que, por sua vez, exprime o Ser.
Deste modo podemos entender a proposição como formada por nomes e verbos, onde presenciamos dois tipos de proposição, ou seja, as proposições declarativas que implicam em verdade ou falsidade e as proposições não-declarativas que não implicam verdade ou falsidade. Na proposição declarativa nós ainda temos as múltiplas que se dividem em proposição declarativa múltipla por si e proposição declarativa múltipla por conjunção, e as proposições elementares, que se dividem em elementares por si e elementares por conjunção. A proposição elementar é unitária, ou seja, ela afirma diretamente o ser, um aspecto do ser, e como já dito acima pode ser dividida em proposição elementar por si, que está na base do mecanismo dos perfeitos silogismos, e a proposição elementar por conjunção, base do mecanismo dos silogismos modais que se referem aos modos de apresentação do ser. Tanto a proposição elementar por si como a proposição elementar por conjunção operam por oposições, ou seja, afirmam ou negam algo, destarte dizem sobre a verdade ou a falsidade de algo.
Depois desse brevíssimo resumo sobre o movimento do Peri Hermeneias, já é possível partir para o capítulo IX, levantar a problemática feita por Aristóteles, como sua respectiva resolução, para depois podermos entender o comentário de Boécio sobre o texto aristotélico, e a problemática instaurada pelo filósofo medieval.
A questão sobre os futuros contingentes se inicia no capítulo IX, onde é feita uma análise de sentenças que estando no futuro podem, portanto, ter valores de verdade diferentes. A contradição (antiphasis) se apresenta como um par de proposições no qual uma afirma o que a outra nega, pois o nosso modo de pensar sempre opera por contradição. Aristóteles dirá:
“For if every affirmation or negation is true or false it is necessary for everything either to be the case or not to be the case. For if one person says that something will be and another denies this same thing, it is clearly necessary for one of them to be saying what is true – if every affirmation is true or false; for both will not be the case together under such circumstances.” (ARISTÓTLES, numeração marginal 18b1-37) [5].Seguindo a mesma lógica que perdura todo o Peri Hermeneias, Aristóteles neste trecho, dirá que somos levados, portanto, a concluir que todas as afirmações e todas as negações têm que ser ou verdadeiras ou falsas, logo se é assim, nada há que aconteça por acaso, portanto não haverá contingência, os acontecimentos se produzirão por necessidade, pois toda proposição particular afirma ou nega algo, como já havia dito Aristóteles outrora, e no futuro essa lógica permanecerá a mesma. Aristóteles opõem as palavras tüquê (contingente) e anagkê (necessidade), ou seja, as proposições particulares no futuro afirmam ou negam, dizem o verdadeiro ou o falso, por esta via temos que as proposições particulares no futuro impõem necessidade aos acontecimentos. Pelo pensamento, a linguagem pode definir os acontecimentos futuros que acabam se tornando determinados, pois, como já dissemos acima, a linguagem exprime o pensamento, que, por sua vez ,exprime o Ser. Logo, o fato de dizer que algo será verdadeiro ou falso determina o acontecimento. Se a linguagem exprime o Ser o futuro terá de ocorrer necessariamente. Indo mais além o simples fato de dizer que algo acontecerá ou não acontecerá já implica em um determinismo do futuro, o problema está em formular que algo acontecerá ou não acontecerá, para tal, é necessário que lembremos que Aristóteles não abandona o Princípio do Terceiro Excluído, segue-se um exemplo: Se eu disser que haverá uma batalha naval amanhã ou o seu contrário, não haverá uma batalha naval amanhã, apenas uma dessas sentenças poderá ser verdadeira; então, se eu disser que haverá uma batalha naval amanhã, ela deverá necessariamente ocorrer amanhã e sua contrária terá de ser necessariamente falsa e, por conseguinte não ocorrer. É necessário que lembremos que o Princípio do Terceiro Excluído exclui uma terceira possibilidade, logo, uma coisa só pode ser ou não ser.
Aristóteles, no entanto mostrará mais adiante o absurdo do determinismo fazendo uso de uma observação empírica onde ele dirá:
“For we see that what will be has an origin both in deliberation and in action, and that, in general, in things that are not always actual there is the possibility of being and of not being; here both possibilities are open, both being and not being, and consequently, both coming to be and not coming to be.” (ARISTÓTELES, 19a1-7)[6].Aristóteles rejeita o determinismo, pois, como ele mesmo afirma, estamos todos cientes, com base em nossas experiências empíricas, de que eventos futuros têm origem nas deliberações e ações, onde as coisas apresentam ato e potência, isto é, a possibilidade de ser ou a possibilidade de não ser. Fazem-se notórios aqui os conceitos de energheia (ato) e dynamis (potência). Portanto se as coisas podem ser ou não ser, os acontecimentos podem ocorrer ou podem não ocorrer, onde Aristóteles dará um exemplo:
“For example, it is possible for this cloak to be cut up, and yet it will not be cut up but will wear out first. But equally, its not being cut up is also possible, for it would not be the case that it wore out first unless its not being cut up were possible.”(ARISTÓTELES, 19a1-12)[7].Portanto, eventos que são dotados de possibilidade podem ocorrer ou não ocorrer, deste modo, nem todos os eventos ocorrem por necessidade, não podemos dizer com certeza de um evento que ele ocorrerá ou não ocorrerá. Logo, as coisas que têm potência para ser, são distintas das coisas que são. Vale ressaltar novamente para que possamos evidenciar o problema dos futuros contingentes, que Aristóteles se mantém fiel ao princípio do terceiro excluído onde x é a ou x é não a, assim, uma terceira opção não existe. Os eventos se exprimem na linguagem, e as coisas não dependem da linguagem humana para ser ou para não ser
[8], dirá finalmente o filósofo.
Boécio, comentando o Peri Hermeneias instaurará uma nova problemática, colocando a idéia de Deus, quando analisa o capítulo IX, pois, como será possível garantir a liberdade das ações humanas, sem que a Deus sejam negados poder, vontade e onisciência? O pensamento se expressa na linguagem e revela o Ser, mas isso dentro de um pensamento finito humano, mas quando pensamos em um Ser onisciente, que conhece tudo o que é e o que será, como resolver o problema do determinismo e do livre arbítrio? O problema dos futuros contingentes atinge uma outra dimensão quando concebemos um pensamento perfeito que não pode errar, ou seja, se para Aristóteles o problema de conceber um Ser cujo pensamento fosse onisciente e perfeito não foi colocado em seu texto e ele, por conseguinte, resolve o problema das proposições no futuro dizendo que a linguagem humana não exprime o Ser, mas é o Ser que se exprime pela linguagem, pois não podemos falar de eventos que ainda são em potência, Boécio amparado a uma idéia de Deus onisciente e perfeito, elabora essa nova problemática com bases no capítulo IX do Peri Hermeneias.
Boécio confirma a onisciência de Deus, onde onisciência quer dizer perfeição, portanto se descarta a possibilidade do erro, logo se Deus conhece algo, esse algo tem de ser ou de não ser e se Deus conhece que algo será então algo terá que ser. Temos desta forma, um novo problema em relação ao futuro, amparado na idéia de um Ser cujo pensamento é onisciente e perfeito, onde lemos:
“If someone says that the necessity of outcomes is a consequence of God´s knowledge of future things, he surely will have the tables turned on him: [viz.] that God cannot know all things if all things do not occur by necessity. For if the necessity of outcomes follows God´s knowledge – [i.e.] if there is no necessity of outcomes [themselves] – divine knowledge is prevented; and who is so perverted in spirit by impious reason as to dare to say such things of God?” (BOÉCIO, 10-17)[9].Como colocar em harmonia a necessidade que aparentemente é própria da onisciência e perfeição com a contingência das escolhas humanas? A saída de Boécio é corrigir o problema, e pensar a possibilidade de haver onisciência e eventos não necessários. Destarte, ele dirá que existem eventos necessários e eventos contingentes, e Deus conhece ambos, pois se a contingência não fizesse parte de seu pensamento onisciente, ele seria imperfeito, uma vez que só poderia conceber as coisas como necessárias, e lhe escapariam as possibilidades da contingência, negando desta forma sua capacidade onisciente. Boécio dirá:
“For if God knows that all things are going to come about necessarily, he is mistaken in that knowledge of his, since not all things come about necessarily, but some contingently. Therefore, if he knows regarding the things that are going to come about that they are going to come about necessarily, he is deceived as regards his own providence!” (BOÉCIO, 5-7)[10].
Deus conhece os futuros não como eventos necessários, mas como eventos contingentes, pois ele seria imperfeito caso não pudesse conceber eventos contingentes, e ele tem completo conhecimento das ações e dos conteúdos que se passam na razão humana para a escolha dos caminhos dados por ele. Para Boécio, o futuro é dado por Deus de forma contingente, e cabe somente a ele entendê-lo, pois a razão humana não pode falar do que ainda irá acontecer. Dito isso, o problema do livre arbítrio é neste comentário do Peri Hermeneias acrescido da idéia de um Ser onisciente e resolvido pelas próprias características desse Ser, que como já dito mais acima, concebe o futuro como contingente embora Ele (Deus), tenha completo conhecimento sobre o que acontece na razão própria dos seres humanos e suas ações.
Faz-se notório no comentário de Boécio um outro argumento que faz com que a contingência exista, a saber, que a deliberação é algo que os seres humanos têm por natureza e que se tudo fosse governando por uma necessidade, ela (a deliberação) seria em vão, mas como afirma o texto, a deliberação não é vã, pois deliberar é algo natural que existe nos seres humanos. Lemos:
“Nothing that is by nature is in vain, but deliberating is something that human beings have naturally. But if necessity alone will have mastery over actual things, deliberation is for no reason. Deliberation is not vain, however, since it is by nature.” (BOÉCIO, 12-15)[11].
Caso todos os eventos fossem necessários, a vontade de Deus não produziria nada, uma vez que tudo seria governando pela necessidade, como resultado disso dirá Boécio, teríamos que somente a necessidade de Deus ordenaria as coisas excluindo sua vontade divina e anulando o livre arbítrio das escolhas humanas.
BibliografiaARISTÓTELES. On Interpretation. In: The Complete Works of Aristotle. Vol. I. Ed. Princeton University Press, New Jersey, 1995.
BOÉCIO. Boethius On Aristotle´s On Interpretation 9. Ed. Cornell University Press, New York,.
ANGIONI, Lucas. Introdução à Teoria das Predicações em Aristóteles. Ed. Unicamp, Campinas, 2006.
[1] Comentário encontrado em: Boehius, On Aristotle´s On Interpretation 9. Ed. Cornell University Press, New York.
[2] ARISTÓTELES, De Interpretatione 16ª1-20, capítulo II.
[3]ARISTÓTELES, De Interpretatione 16b1-6, capítulo III.
[4]ARISTÓTELES, De Interpretatione 16b1-27, capítulo IV.
[5] ARISTÓTELES. “De Interpretatione”. In: The Complete Works of Aristotle. Ed. Princeton University Press, ano: 1991. New Jersey. Organizado e editado por Jonathan Barnes.
[6] ARISTÓTELES. “De Interpretatione”. In: The Complete Works of Aristotle. Ed. Princeton University Press, ano: 1991. New Jersey. Organizado e editado por Jonathan Barnes.
[7] ARISTÓTELES. “De Interpreatatione”. In: The Complete Works of Aristotle. Ed. Princeton University Press, ano: 1991. New Jersey. Organizado e editado por Jonathan Barnes.
[8] ARISTÓTELES, De Interpretatione 18b-36.
[9] BOÉCIO. “On Aristotle´s On Interpretation 9”.Ed. Cornell University Press, New York, pg. 170.
[10] BOÉCIO. “On Aristotle´s On Interpretation 9”.Ed. Cornell University Press, New York, pg. 171.
[11] BOÉCIO. “On Aristotle´s On Interpretation 9”.Ed. Cornell University Press, New York, pg 167.