quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Muito além da Solidão

À Flávia Godoy


Em cima da mesa, algumas lições e papeis pendentes, livros e canetas soltas, formavam o amálgama que dava a impressão da univocidade. Um pouco à esquerda, brilhava uma velha prateleira com revistas, fotos, pequenas estátuas de porcelana chinesa e alguns livros avulsos de todos os tipos, tamanho e cores. Havia também um espelho acumulado com pequenas partículas cinza de poeira de tempos atrás, refletindo num canto escondido do cômodo uma pequena sombra deitada sob um sofá voluptuoso de braços largos de cor rouge manchado de bourbon. No chão cinzas, eternas cinzas dos cigarros que queimavam todos os dias deixando revelar a precária higiene do lugar e o vício diário da pequena sombra que depois de algum tempo moveu-se no sofá e fez-se perceber humano, vivo, carne, osso, sangue e finitude. Todo a sujeira do lugar era menor e mais abafada que a saudade que ele sentia, todo odor de poeira e bourbon eram mais fracos que o cheiro que suas lágrimas levantavam quando o chão tocavam, porém, não havia chão que suportasse a garoa que de seus olhos pequenos caia, não havia espaço naquela espécie de ante-sala para guadar sua saudade.
A sombra esticada no sofá se mexia sem sentido e raras vezes, salvo quando deixava a mão deslisar para agarrar o copo ou acender outro cigarro, mas ainda sim, seus movimentos eram feios e precários, não havia desenvoltura motora, tão pouco brilho algum.
Um papel de parede roxo ladrilhado com círculos dourados emanava no local uma certa sensação de decadência e abandono furtivo que apagavam qualquer idéia acerca do inefável. Só o rádio ligado se fazia ouvir, tocava com timidez Assum branco na voz ameaçadora que trazia a sensação de seca e protesto ao lugar.
Tudo ali era mistura, mistura de dor e poeira, saudade e borboun, lágrima e fumaça, música e tédio, que unidos revelavam a saudade do amor dourado que um dia, sem mais, foi embora pra nunca mais voltar e fez de todo aquele lugar um eterno regressar aos braços da memória perdida.
- "Assum preto foi
Asa branca dói
Muito além da solidão".

domingo, 26 de outubro de 2008

Fotos...

"A "rotina" do amor nunca escapa aos olhos do apaixonado! Ela exala um amor no qual eu jamais poderia mensurar, viver para senti-lo é a diferença, é o que motiva um "girassol sem sol"..."


"Dias como esse, nunca se interrompem dentro de nós"





"Queria uma palavra que pudesse definir a saudade e o amor que sinto...Acho que neologismo algum poderia definir isso que cresce em mim como amálgama que há dentro de Deus, tão pouco essas palavras-cotidiano saberiam emanar diante de nós o amor-além-mar...Faço todos os dias neologismos para dizer o quanto eu amo tudo o que há em você, e ao contrário do que um dia o homem pode dizer, eu amo tudo em você!"






"...acho que ainda precisamos inventar uma palavra, uma palavra que falasse do amor de todos os tempos, das juras além-mar, precisaria ser uma palavra que sussurrasse todos os dias a fuga eterna do amor..."















sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sem saber o quanto esse momento poderia durar

À Flávia Godoy

Caíam chuvas torrenciais
que evaporavam
quando no mar caíam
...e eu o mar também toquei
também cai
também evaporei
E do último suspiro d'água
enclodiu também o último verso
que me veio aos olhos dizendo:
"Eternamente en fuga como la ola..."

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Reinvenção

Reinvenção

Reinvento o Cântico dos Cânticos
os mais belos versos
para louvar-te com palavras

Reinvento-me e me faço
amor sobre amor
porque só assim
ei de poder cantar-te
eternidade além...

Reinvento os dias e as horas
inconstantes álibis
das poesias que não mudam,
mas ao contrário,
decantam até tornarem-se seiva, leiva e raiz

E nessas reinvenções
face por face de minha alma
sublinham teu riso
que aparta o medo
da morte severina...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Haicais que brigam

Querendo relembrar alguns posts antigos, hoje postarei dois haikais que falam de coisas contrárias, e cuja interpretação de um deles devo a um amigo que muito bem o leu, mostrando que nas mais das vezes podemos criar coisas que nem nós mesmos esperamos...


In: Haikais da última vida

Chuva e frio
guarda-chuva e blusa
morte intrusa!

In: Haicais por amor

No rádio Blues
na mesa vinho
na cama nus...



segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Kalokagathia e areté em Platão

Gostaria de expor de modo simples a noção de kalokagathia em Platão junto com o termo areté que também encontramos unido a primeira noção.
A alma do filósofo é kalokagathia, ou seja, é bela e boa, nesses termos podemos entender porque Sócrates é feio, porém belo e bom.
O kalokagathia derivação de kalós kai agathós (belo e bom) se dá de forma eminente no corpus da filosofia platônica no tocante a moral, virtude e conhecimento. A psyché (alma) do filósofo é bela e boa porque é ela que através da dymanis (potência) da dialética pode conhecer o que há de mais divino, imutável e belo. É pela arte de interrogar e responder (dialética) que o filósofo toca o divino com seu lógos (razão), tornado-se, por conseguinte parte do divino. Mas o que é o divino e como ele pode dar ao filósofo o status do kalokagathia?
O divino é o Eidos do Bem (Forma do Bem), conhecer a verdade é conhecer a essência do Bem, é conhecer aquilo que dá as coisas instauradas no mundo sensível qualidade. É pela méthesis (participação) das essências que as coisas no mundo sensível são possíveis. A Forma (Eidos) é aquilo que há de mais particular no ente sensível, ou seja, uma coisa só é o que é no sensível, pois participa de uma Forma que se encontra no Inteligível, destarte, as Formas são o ser verdadeiramente real, são incorporais e invisíveis como comentou Goldschmidt em seu livro intitulado A Religião de Platão. Deste modo, a Forma é aquilo que é una, indivisível e eterna e só pode ser apreendida pelo exercício do intelecto que através da dynamis dialética fará uma ascensão do mundo sensível que guarda a multiplicidade das coisas para o mundo inteligível que é eterno, imutável e divino.
Dito de forma rápida a Teoria das Formas de Platão, foquemo-nos no conceito de kalokagathia e areté. A alma do Filósofo é bela e boa porque é ela quem conhece o ton mégisthon máthema (supremo objeto de conhecimento), o filósofo é bom porque conhece a forma mais elementar, mais particular do Bem, que por sua vez é divina e imutável. O Filósofo é virtuoso porque pelo exercício do nôus katharos (pensamento puro) ele ascende ao imutável e, por conseguinte deixa o plano do devir, onde tudo é inconstante e dá margens a doxa (opinião). Faz-se notável destarte que o filósofo opera sempre com a alétheia (verdade), uma vez que é ele aquele quem conhece o Divino. A alma então passa a ser kalokagathia, e o filósofo é virtuoso, possui a areté, termo este que advém da Grécia arcaica, e era conferida a classe nobre dos gregos.
É o filósofo detentor da verdade imutável que se encontra no plano Inteligível, é ele que possui o conhecimento daquilo que é fixo e essencial, deste modo, cabe a ele o título da areté que confere a sua alma o estado do kalokagathia.
Como já havia dito acima, o que expus aqui é algo muito básico, apenas um brevíssimo comentário de dois termos. Todavia, seria interessante uma pesquisa mais profunda que tivesse por privilégio as noções de kalokagathia e areté que Platão constrói na imagem do Filósofo, e como essas noções norteiam o pensamento acerca da moral, da política e do conhecimento dentro dos diálogos platônicos.

Em um outro breve comentária, tentarei expor a noção de devir e kairós dentro do pensamento antigo grego.

domingo, 5 de outubro de 2008

Filmes

Filmes: O Verdadeiro Cinema!

Akira Kurosawa:
Rapsódia em Agosto - Hachi-gatsu no kyôshikyoku

Abbas Kiarostami:
Através das Oliveiras - Zire darakhatan zeyton
Gosto de Cereja - طعم گيلا (Ta'm E Guilass)
Duas soluções para um problema - Do Rahehal Barayeh Yek Massaleh
Recreio - نزنگ تفریح (Zang-e Tafrih)

Bernardo Bertolucci:
A Morte – La commare secca

Alain Resnais:
Ano Passado em Marienbad - L'Année dernière à Marienbad

Ang Lee:
O Tigre e o Dragão - Wo Hu Cang Long

Agnieszka Holland:
O Segredo de Beethoven - Copying Beethoven

Brian Friel:
Dançando em Laguna - Dancing at Lughnasa

Clint Eastwood:
Cartas de Iwo Jima – Letter from Iwo Jima
Menina de Ouro – Million Dollar Baby

Cláudio Assis:
Amarelo Manga

Charles Dance:
O Violinista que veio do mar - Ladies In Lavender

Carl Theodor Dreyer:
Gertrud

Cardes Amâncio:
Jardim de Lírios

Cao Hamburger:
O ano em que meus pais saíram de férias

Carlos Alberto Riccelli:
O Signo da Cidade

Charles Sturridge:
Improviso de Ohio - Ohio Impromptu (Samuel Beckett)

Christophe Honoré:
Tudo Contra Léo – Tout Contre Léo

Daniel Ribeiro:
Café com Leite

David Lynch:
Cidade dos Sonhos - Mulholland Drive

Darren Aronofsky:
A Fonte da Vida - The Fountain

Eytan Fox:
Yossi & Jagger

François Ozon:
O Tempo que Resta – Le Temps Qui Rest

François Truffaut:
Uma Mulher Para Dois: Jules Et Jim
A Mulher do Lado: La Femme d’à Cote
O Último Metrô - Le Denier Métro

Federico Fellini:
Oito e Meio - (Otto e Mezzo (8 ½))
A doce Vida – La Dolce Vita

Fernado Meirelles:
O Jardineiro Fiel – The Constat Garden

Guy Maddin:
A Música Mais Triste do Mundo - The Saddest Music in the World

Guillermo del Toro:
O Labirinto de Fauno – El Laberinto del Fauno

Gore Verbinski:
O Sol de cada manhã – The Weather Man

Hark Tsui:
Missing - Sam hoi tsam yan

Ingmar Bergman:
Sonhos de Mulheres - Kvinnodröm
Sorrisos de uma Noite de Amor - Sommarnattens Leende
Noites de Circo - Gycklarnas Afton
A Fonte da Donzela - Jungfrukällan
Gritos e Sussuros - Viskningar Och Rop
O Sétimo Selo - Det Sjunde Inseglet
Morangos Silvestres - Smultronstället
Da Vida das Marionetes - Aus dem Leben der Marionetten
Persona – Personna
Sonata de Outono - Höstsonaten
Chove em nosso amor - Det Regnar På Vår Kärlek
Através de um Espelho - Sasom I En Spegel
Depois do Ensaio - Efter Repetitionen
Cenas de um casamento - Scener ur ett Äktenskap
O Silêncio - Tystnaden
No Limiar da Vida - Nära Livet
Sede de Paixões - Törst
O Rito – Riten
O Rosto - Ansiktet
Porto - Hamnstad
Quando as mulheres esperam - Kvinnors Väntan
Ingmar Bergman Volume I: Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, O Sétimo Selo, A Fonte da Donzela
Ingmar Bergaman Volume II: Noites de Circo, Sorrisos de uma Noite de Amor, Sonhos de Mulheres

Isao Takahata:
Cemitério de Vagalumes – Hotaru no Haka

Ilan Duran Cohen:
Os Amantes do Café Flore – Les Amants du Flore

Isabelle Mergault:
Você é tão bonito – Je vous trouve três beau

Jacques Deschamps:
Desconfie das Águas Paradas - Méfie-toi de l'eau qui dort

Jim Jarmusch:
Sobre Cigarros e Cafés – Coffee and Cigarettes

John Huston:
Freud Além da Alma – Freud Aka Freud

Julian Schnabel:
O Escafandro e a Borboleta - Le Scaphandre et le Papillon

Jane Anderson:
Se Essas Paredes Falassem – If These Walls Could Talk

Jean-Luc Godard:
O demônio das onze horas – Pierot Le Fou
Je Vous Salue Marie
In Praise of Love – Elogio do Amor

Kim Ki-Duk:
Sem fôlego – Soom

Kim Yong-hwa:
200 Pounds Beauty - Minyeo-neun goerowo

Krzysztof Kieślowski:
A Fraternidade É Vermelha - Trois Couleurs: Rouge
A Igualdade É Branca - Trois Couleurs: Bialy
A Liberdade É Azul - Trois Couleurs: Bleu
Não Amarás – A Short Film About Love

Kwak Jae-Yong:
My Sassy Girl - Yeopgijeogin Geunyeo

Liz Gill:
Todas as Cores do Amor – Goldfish Memory

Louis Malle:
Lua Negra – Black Moon

Ming-liang Tsai:
O Sabor da Melancia - Tian Bian Yi Duo Yun

Milcho Manchevski:
Antes da Chuva – Before the Rain

Marcelo Masagão:
Nós que aqui estamos por vós esperamos

Marc Forster:
O Caçador de Pipar – The kite Runner

Mamad Haghighat:
Dois Anjos – Deux Fereshté

Marcus H. Rosenmüller:
Quando Morre Mais Cedo já Está Morto há Muito Tempo - Wer früher stirbt, ist länger tot

Michel Reilhac:
Polissons et galipettes

Michael Haneke:
Caché

Michael Cues:
L.I.E

Mike Binder:
Reine Sobre Mim – Reign Over Me

Matías Bize:
Na Cama – Em La Cama

Nagisa Oshima:
Juventude Desenfreada - Seishun zankoku monogatari

Neil Jordan:
Café da Manhã em Plutão – Breakfast on Pluto

Naomi Kawase:
A Floresta dos Lamentos – Mogari no Mori

Park Chan-Wook:
I´m a cyborg but that´s OKAY
Escravas da Vaidade – Dumplings

Pier Paolo Pasolini:
Édipo Rei – Edipo Re
Medéia – Medea

Pedro Almodóvar:
Fale com Ela – Hable com Ella
Tudo Sobre minha Mãe – Todo Sobre mi Madre
Que fiz eu para merecer isso? - ¿qué He Hecho Yo Para Merecer Esto!
Má Educação – La mala educación
Kika

Paz Encina:
Hamaca Paraguaya

Peter Weir:
Sociedade dos Poetas Mortos – Dead Poets Society

Peter Schønau Fog:
A Arte das Lágrimas - Kunsten at græde i kor

Rainer Werner Fassbinder:
As Lágrimas Amargas de Petra von Kant - Die Bitteren Tränen der Petra von Kant
Berlin Alexander platz 6 – Um amor sempre custa caro
Num Ano de 13 Luas - In einem Jahr mit 13 Monden

Ronny Yu:
O Mestre das Armas - Huo Yuanjia

Robert Towne:
Pergunte ao Pó – Ask The Dust

Roberto Rossellini:
Sócrates – Socrate

Rudi Lagemann:
Anjos do Sol

Robert Zemeckis:
Forest Gump – O Contador de Histórias – Forest Gump

Rob Marshall:
Memórias de uma Gueixa - Memoirs of a Geisha

Roy Andersson:
Canções do Segundo Andar - Sånger från andra våningen

Sijie Daí:
As Filhas do Botânico Chinês – Les Filles du Botaniste

Sion Sono:
Strange Circus - Kimyô na sâkasu

Stanley Kubrick:
2001: Uma Odisséia no Espaço - A Space Odyssey
O Iluminado – The Shining

Suzana Amaral:
A Hora da Estrela

Tarsem Singh:
The Fall

Theo Angelopoulos:
Um Olhar a Cada Dia
Dias de 36 – Meres Tou 36

Tony Richardson:
Gosto de Mel – A Taste of Honey

Tim Burton:
Peixe Grande e Suas Histórias – Big Fish
O Estanho Mundo de Jack – Nightmare Before Christmas
Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet - Sweeney Todd: The Demon Barber Of Fleet Street

Takeshi Kitano:
Dolls
Zatoichi

Takashi Koizumi:
Depois da Chuva – Ame Agaru

Takahisa Zeze:
Moon Child

Tommy Lee Wallace:
A Coisa – It

Uli Edel:
Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída - Christiane F. - Wir Kinder vom Bahnhof Zoo

Vincent Ward:
Amor Além da Vida – What Dreams May Come

Wong Kar-Wai:
Anjos Caídos - Doh lok tin si
Amores Expressos - Chungking Express
Felizes Juntos - Chun gwong cha sit
Amor à Flor da Pele - In the Mood for Love

Woody Allen:
A Rosa Púrpura do Cairo – The Purple Rose of Cairo
Dirigindo no Escuro - Hollywood Ending

Wolfgang Becker:
Adeus Lenin! – Good-bye, Lenin!

Yimou Zhang:
Herói - Ying Xiong
Lanternas Vermelhas - Zhang Yimou
O clã das adagas voadoras - Shi Mian Mai Fu

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Imprecisão

Imprecisão da vida é quando
acordamos com o sol do dia
aquecendo gentilmente o rosto
mas não nos sentimos
no direito de ser coisa alguma...