quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Imaginação e Superstição no Tratado Teológico-Político.




Este trabalho tem como intuito, examinar o que é a imaginação e a superstição dentro do Tratado Teológico-Político do filósofo holandês Baruch de Espinosa. Para tal escopo, faremos uso do prefácio e do capítulo I (Da profecia) do Teológico-Político, salientando e demarcando os conceitos de superstição e imaginação que neles aparecem.
Espinosa, no começo do prefácio do Teológico-Político, já demarca a condição passional dos homens. Ele diz:


“Se os homens pudessem, em todas as circunstâncias, decidir pelo seguro ou se a fortuna se lhes mostrasse sempre favorável, jamais seriam vítimas da superstição.” (ESPINOSA, p.5) [1].


Faz-se notório, deste modo, que a superstição age nos homens, pois, como Espinosa diz, a Fortuna é instável e freqüentemente os homens se encontram em dificuldades de toda a sorte, assim, acabam por oscilar entre o medo e a esperança e estão sempre prontos a acreditar seja no que for[2]. Deixamo-nos levar pela superstição, pois, nunca conseguimos decidir algo com segurança e certeza, uma vez que estamos sempre desejando bens incertos, ou seja, bens que dependem de uma causa externa a nós[3], e quanto mais desejamos os bens incertos, mais nos afastamos da razão e do conhecimento verdadeiro. Eis, destarte, a verdadeira condição humana, a saber: a de que os homens são propensos à superstição porque, não conseguem se guiar por conselhos certos, e a Fortuna se apresenta como instável.
Para Espinosa, a superstição domina, cega e priva os homens do conhecimento natural, afasta-os do verdadeiro saber da natureza de Deus, embutido-os uma visão equivocada sobre Deus. Ela (a superstição) se apresenta como a falta do conhecimento verdadeiro de Deus e do conhecimento da natureza, e tem sua origem no medo.
O medo, causa que origina, conserva e alimenta a superstição, é a falta do conhecimento natural e do conhecimento verdadeiro da natureza, pois, uma vez que o homem imerge na superstição, ele deixa de acreditar na razão e passa a se guiar pelo medo. A relação entre o medo e a superstição se dá como um ciclo vicioso, uma vez que ambos (medo e superstição) têm como fonte o desconhecimento da natureza e um desconhecimento da imanência. Tal ciclo vicioso se constitui por uma epistemologia transcendental, que, como dito acima, se dá por um desconhecimento da imanência.
O homem em sua condição natural deseja bens incertos e fica sujeito às inconstâncias da Fortuna, por isso, acaba flutuando entre a esperança e o medo, há deste modo, uma oposição entre segurança e insegurança, que o afasta da razão e dá margens ao medo e a superstição. Lemos:


“(...) se têm dúvidas, deixam-se levar como a maior das facilidades para aqui ou para ali; se hesitam, sobressaltados pela esperança e pelo medo simultaneamente, ainda é pior, se estão confiantes, ficam logo inchados de orgulho e presunção.” (ESPINOSA, p.5) [4].


No entanto, não se trata de intervir na natureza humana, o que Espinosa nos fala no prefácio é que todos os homens tem medo e superstição, e isso, por conseguinte, não os impede de constituir uma vida ética. É necessário, destarte, que façamos uso do conhecimento natural para que possamos guiar e conservar nossa existência no mundo. Para compreender os movimentos da superstição, faz-se necessário uma epistemologia, e Espinosa cria uma epistemologia da imaginação. É necessário salientar que o homem deve evitar os movimentos que o entrega à transcendência, ao medo e à superstição.
Ainda no prefácio, o filósofo dirá que a superstição é um instrumento político que governa as massas, uma vez que, as multidões não dão ouvidos a razão. Vale lembrar, que o Tratado Teológico-Político é uma defesa da liberdade e da democracia, e para tal, deve-se lutar contra os instrumentos que governam e repreendem as massas. Para que haja uma República livre, é necessário que não haja superstição, dirá o filósofo.
Espinosa apontará a falsa religião como àquela que domina as massas fazendo uso do medo e da superstição, pois, o conhecimento imagético de Deus, transmitido pela teologia, será um conhecimento insuficiente da natureza de Deus, dando margens a absurdos que o conhecimento natural jamais atestaria na natureza. Há, por conseguinte, uma relação entre o medo, a superstição, a imaginação, a teologia e a falsa religião. A teologia cria um aparato de dominação fundado na superstição, e isso, é o que Espinosa chama de falsa religião.
De acordo com o autor, os homens só se deixam dominar quando possuídos pelo medo, e a teologia, cria um aparato de dominação fazendo uso da superstição, ou seja, a teologia amparada a uma idéia inadequada e insuficiente de Deus usa o medo como um instrumento para governar as massas, uma vez que, como já dito, as multidões não dão ouvidos á razão.
Como já exposto acima, a causa da superstição é o medo, e, portanto:


“(...) há que concluir, primeiro, que todos os homens lhe estão naturalmente sujeitos (digam o que disserem os que julgam que ela deriva do fato de os mortais terem todos uma idéia qualquer, mais ou menos confusa, da divindade” (ESPINOSA, p.7) [5].


Ou seja, a superstição não provem da razão, mas da paixão, e como afirma Espinosa, da paixão mais eficiente. A teologia, que conhece Deus de forma imagética, usa o medo e a superstição, que são naturais no homem, como exposto já nesta resenha, para governar as massas alheias à razão.
Definidos os movimentos do medo e da superstição, faz-se necessário agora uma exposição do que é a imaginação, para tal, voltemo-nos para o escólio II da proposição XL da Ética II (Da Natureza e da Origem da Alma), onde Espinosa nos apresenta os modos de percepção do intelecto. O intelecto, é dividido em três modos de percepção, a saber; a imaginação, a razão e a intuição.
A imaginação, intui coisas particulares, não se encontra no terreno da luz natural, e deste modo, nunca é terreno seguro para a razão humana e seus atos. A imaginação, pode ser potência, mas só onde a razão não precise atuar. A imaginação (imagem), não pode, tão pouco, tornar-se guia da reflexão ética, uma vez que esta, opera não no âmbito racional, mas no âmbito imagético.
Todavia, é necessário sublinhar que na teologia a imaginação, se torna mais perigosa, pois, o conhecimento insuficiente de Deus é o conhecimento que se instaura pela imaginação, ou seja, há um conhecimento fraco da natureza e da imanência, que, por conseguinte, faz com que os homens temam a natureza. A teologia faz uso do conhecimento insuficiente de Deus, e embute nos homens todo tipo de medo e superstição.
Somente podemos conhecer verdadeiramente Deus, através da razão, que nos mostra as relações entre as coisas, nos faz ter uma noção do universal, e nos apresenta a relação das essências. Conhecer Deus de modo correto, é conhecê-lo pela razão, doravante, é conhecê-lo tal qual Espinosa expõem na Ética I (De Deus). A idéia racional de Deus, é uma idéia necessária da existência de Deus, que por conseguinte, nos leva ao conhecimento verdadeiro da natureza de Deus.
A proposição VI da parte I da Ética, mostra-nos claramente a idéia intuitiva e necessária que Espinosa constrói de Deus. Lemos:


“Por Deus entendo o ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita.” (ESPINOSA, Ética I, proposição VI, p. 84) [6].


O conhecimento imagético de Deus, é um conhecimento insuficiente. A teologia, emprega na natureza de Deus elementos que geram medo, e o homem, passa a ser governado pela superstição.
Quando pela Ética I, através da razão, conhecemos Deus, ficamos livres de todo tipo de imaginação e superstição acerca de sua natureza. Portanto, é necessário conhecer a natureza fazendo uso do conhecimento natural, para que assim, afastemos a superstição e a imaginação. Logo, a concepção imaginativa acerca de Deus, é essa que escapa da concepção escrita na Ética I.
Dito os movimentos do medo, da superstição e da imaginação, voltemo-nos para o capítulo I (Da profecia) do Tratado Teológico-Político, afim de sublinhar dentro das profecias um aspecto da imaginação que se encontra nas Escrituras Sagradas.
O filósofo abre o capítulo primeiro definindo o que é a profecia. Lemos:


“Profecia ou Revelação é o conhecimento certo de alguma coisa revelado por Deus aos homens. O profeta, por conseguinte, é o que interpreta as coisas que Deus revela para aqueles que delas não podem ter um conhecimento certo e que, por isso, só pela fé as podem partilhar.” (ESPINOSA, p. 15) [7].


Segundo Espinosa, a profecia depende do conhecimento natural, pois o que nós conhecemos através da razão depende exclusivamente do conhecimento de Deus e seus decretos[8]. No entanto, esse conhecimento natural, por ser comum a todos os homens, não é tido em grande conta pelo vulgo, pois estes, estão sempre desejosos de coisas raras e alheias à sua natureza, destarte quando se fala de conhecimento profético, acaba-se por excluir o conhecimento natural.
O filósofo dirá, que o conhecimento natural, contudo, tem tanto direito como qualquer outro a ser chamado de conhecimento divino, uma vez que participamos da natureza divina e dos decretos de Deus. Há por conseguinte uma distinção entre o conhecimento natural e o conhecimento profético, ou seja, o primeiro é amparado pela razão, e o segundo se estende para além do primeiro, pois faz uso da imaginação, destarte, diz coisas acerca da natureza que não estão presentes na natureza.
Faz-se intrínseco, deste modo, a nota do tradutor do Tratado Teológico-Político, Diogo Pires Aurélio comentando esta passagem. Ele diz que o conhecimento profético se estende para além do conhecimento natural, pois o primeiro, só pode ser aceito por alguém na base da fé, e Espinosa dirá que esta aceitação do conhecimento profético, implica exclusivamente na autoridade do profeta e na confiança que nele se têm.
Para analisar as profecias, o autor faz uso das Escrituras Sagradas, para tal, Espinosa faz uma leitura da Bíblia pela própria Bíblia, busca dentro dela elementos que possam mostrar que as profecias ditas pelos profetas, foram feitas através de imagens, ou seja, foram frutos da imaginação, destarte, se apresentando como um conhecimento insuficiente e inadequado da natureza de Deus. Por fim, a Escritura sagrada, segundo Espinosa, não nos ensina questões filosóficas, mas apenas a piedade, portanto, ela só pode atuar no nível da fé.
Querendo saber se de fato Deus se comunicou aos homens pela voz, o filósofo usa de várias passagens das Escrituras, e aqui ressaltamos uma delas:


“Imaginária foi também a voz que Abimelec escutou. Com efeito, diz-se no Gênesis, cap. XX, 6: e Deus disse-lhe em sonhos, etc. Não foi portanto, quando estava acordado, mas só em sonhos (ou seja, na altura em que a imaginação está naturalmente mais propensa a imaginar coisas que não existem) que pôde imaginar a vontade de Deus.” (ESPINOSA, p. 19) [9].


Portanto, a profecia é um tipo de imaginação, ou seja, algo que é revelado por imagens. A citação feita acima, deixa clara o caráter imagético da profecia, pois esta, só funciona dentro dos limites da imaginação.
As profecias, que se encontram dentro das Escrituras, são frutos da imaginação, oriundas do profeta, por tanto, elas (as profecias) no âmbito racional, não poderiam jamais serem tidas como um conhecimento seguro e certo de Deus. Para Espinosa os profetas não perceberam a revelação divina senão através da imaginação, isto é, através de palavras ou imagens.
A título de tornar mais forte a argumentação do filósofo, no capítulo seguinte (Dos profetas), Espinosa nos apresentará o profeta, como sendo o intérprete de Deus segundo a Bíblia, mas, no entanto, o que o autor afirma é que, o profeta se apresenta como alguém cujo intelecto é fraco, mas dotado de grande imaginação, pois, faz uso de uma imaginação intensa sem o auxílio do intelecto. O profeta assenta sua certeza em três coisas, a saber: a imaginação nítida, um sinal, e por fim, ânimo dado à justiça e ao bem.
Portanto, se a profecia é transmitida pelo profeta, aquele cujo intelecto é fraco e só se ampara na imaginação, logo, o caráter da profecia só poderá ser imagético e insuficiente. Por não ser um conhecimento seguro acerca de Deus, a profecia nos enche de superstições e idéias inadequadas sobre a natureza. Há um embate entre o conhecimento profético e o conhecimento natural, o primeiro é amparado apenas pelo conhecimento que se dá por meio da imaginação, que como já explanado aqui, é fraco e insuficiente quando queremos conhecer a natureza. O conhecimento natural (racional), no entanto, é o único meio pelo qual podemos conhecer a natureza de forma segura e verdadeira, pois, só a razão pode nos fazer conhecer de forma clara e evidente.
Dentro das profecias, a imaginação se apresenta como o único meio pelo qual os profetas expressaram seus conhecimentos insuficientes acerca de Deus, mas quando a teologia faz uso deste conhecimento imaginativo, que por sua vez nos remete a superstição, ela toma controle do homem, governando-o pelo medo.

Bibliografia:

ESPINOSA, Baruch de, Tratado Teológico-Político. Tradução de Diogo Pires Aurélio. São Paulo, ed. Martins Fontes, 2003.

ESPINOSA, Baruch de, Ética, Coleção Os Pensadores. Tradução e notas de Joaquim de Carvalho. São Paulo, ed. Abril Cultural, 1973.


Notas:

[1] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo.
[2] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg. 5.
[3] “Tanto assim é, que quem nós vemos ser escravos de toda a espécie de superstição são sobretudo os que desejam sem moderação os bens incertos”. In: “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg. 6.
[4] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg. 5.
[5] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg.7.
[6] ESPINOSA, Baruch de. “Ética”. Ed: Abril Cultural, ano:1973. São Paulo. Pg. 84.
[7] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg. 15.
[8] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg. 16.
[9] ESPINOSA, Baruch de, “Tratado Teológico-Político”. Ed. Martins Fontes, ano: 2003. São Paulo. Pg.19.

0 comentários: