quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pra molhar

Meu coração cresceu, dilatou e rompeu.
Abarcou o todo do mar
mergulhou pra não voltar...

Foi assim meu bem
minha última vida,
Gosto d'sal
cheiro d' agua
pele encharcada
corrente sem cais
refresco do sol...
Chuva feita pra molhar...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Da morte

Pra poder evaporar
fiz-me silêncio,
espera incessante,
anseio de colo
céu sem presságio
verão paulistano.

A porta aberta,
cortinas dançando
enquanto te espero
em minha cadeira
de mil anos...

No que se fará pó,
meu olho entoa
estremecido, tem medo
mas ainda quer se fechar.

Vens se aproximando
fino arrepio,
peito entravado
libera um grito.

Vou ecoando,
enquanto me seco
passo os prédios
até minha antiga cidade.

Lá, revisito memórias,
reconheço pessoas
abarco todas as ruas
amareladas de luz.

Antigo, conheço-me de novo
e na velha casa adentro.
Corredores, quartos e cozinha
mas minha mãe já não mora mais aqui.

Suspiro...
ofego...
teu mais secreto mistério.
Despido da carne...

Tenho de voltar, preciso de adeus.
Ele dorme quieto, com minhas roupas do lado
Só vi dizer-te
que já não sou mais verbo...

Enraizam-me na terra.
e me deixo evaporar
orvalho de grama,
sol despontado.

Toma meu último poema
que espera reviver,
tem nele odes de adeus e pequenas orações
Canta teu nome sem voz
fala ausente.

As cortinas dançam,
a porta está aberta
e você cochila
enquanto vou dormindo.

É noite de luz,
calor e mormaço.
Fecham-me todo
o peito parado, só quer te dizer
pela última vez...

Boa noite, até amanhã...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quero chover

Turvo dia;
nebulosa onda que me arrasta
para além-mar,
no deserto d'agua.
Vem vindo alguém.
Mas passa, como passa o vento:
Fino assobio que causa arrepio.

Perdido no meio de cavalos de água
vou me conduzindo e adentrando
por entre arroios, chuvas de verão
e transbordamentos de cólera.
Vivo na estação das marés.

Caminho por longas extensões
com gosto de sal enquanto deixo-me afogar.
Tenho sede!
Minha roupa, veste azul, onda em fuga,
está toda ela perpassada por vazios
que nunca findam.
São como a infinitude do oceano todo.

Não há ninguém por perto.
Todos os canoeiros
já se foram para muito longe de onde eu habito.
Por isso, deito-me sempre só.
Flútuo na presença de todas as estrelas.

Não me lembro exatamente
o dia em que me perdi
porque nunca me deram por desaparecido.
Sou árduo demais para
me sentir no direito de ser.
Escorro por entre fendas
vou rolando abismos
até cair no mar.
Sou líquido.
Matéria que se adere a todas as formas,
e por isso mesmo
eu nunca soubera quem exatamente fui de verdade...

Se me deixo molhado
é para poder evaporar...
Turvo dia...
Ameaço chover...

domingo, 22 de novembro de 2009

Gosto e aroma

O sorriso sabor canela
que eu levo na boca, vem de você.
Sua presença é mel, de gosto jovial.
Espalham-se de seu corpo
açúcar, carinho e afeto
-eterno rastro de docidão,
deleite que se prova na imensidão.
Desentrava-me o doce de sua presença
eleva-me o gosto de seus amores,
porque o amor é pra comer: tem sabor e aroma.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O ofício do poeta

Há de ser em ti
o meu descanso perene
há de ser o seu braço, o meu braço.
Atemos as mãos.

A noite lá fora passa devagar enquanto você não vem.
Por isso leio livros, limpo a casa, e durmo muito.
É triste ficar abandonado até de si mesmo.
E quando tropeço numa profunda melancolia
ponho-me a escrever poesias - todas inúteis e cheias de falhas.
Fiz desse exercício, fruto de solidão,
meu discurso que ninguém busca.
Dos entraves,
poema e cigarro são meus últimos companheiros.

É triste o ofício do poeta.
Tem guardado nele
algumas palavras soltas, que juntas,
formam esta esdrúxula anatomia
que no final da tarde irá de desfazer.

Como uma extensão de suas próprias roupas
ele sai às vezes para a rua
pronto, absorve cada momento e situação
que jamais teve para si.
Vai percorrendo gestos despercebidos,
porque tem sede deles.
Quem se acha no direito da felicidade
não escreve poesia.

O poeta quer falar
mas não sabe muito bem como
por isso, em versos
tece seu maior discurso - mudo e fluido.
O poeta quer sentir,
e por esse desejo, ele exorta as palavras
e as arranja na ânsia pelo sorriso.

Mas, na exaustão de tanta noite e tanto dia
ele se apega ao que só sabe sentir
e vai deixando para trás, pouco à pouco
essa vontade de querer ser feliz.
O poeta gosta da tristeza,
ela é o fruto de seu ofício.
Sem ela os gestos alheios
não seriam gradiosos e cheios de desejos.
A tristeza nasce da vontade d'alegria.
E é ela, aquela que enobrece
cada situação

Cada vez mais apegado a essa dor,
o homem que dá outro sentido as coisas e as palavras
acaba por perceber, que é o desgosto que adoça
e sem ilusões o amor jamais despertaria belo e único,
preciso e eterno.

Há de ser em ti o
meu descanso merecido,
o findar desse meu vício - apreciador de um certo agouro
É em ti o meu tesouro adormecido,
o beijo que por tantaz vezes eu cai.

Mas meu amor,
não te enchas de esperança
não te iludas o coração
porque o poeta faz de seu ofício
eterna maldição...

Oração

Postado em 2008

"...na falta de saber-me apaixonado, criei amores que jamais poderiam existir."



Ruas tão cheias passam sobre mim como um último vento
que vêm soprar nos meus ouvidos
secretas revelações da cidade-sombra...
Ruas, avenidas, supermercados, lojas cheias
Mas não, Não o coração!
Queria mesmo
era me perder nos teus contornos fortes
rezando bem baixinho
pela perda de saber-me longe de ti...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

É dura a vida
alça e tripa: prestes a romper.
É metal quente
que marcar até doer.

É molhada a vida:
Brota n'alma rota
um arroio que flui;
sai dos olhos cai pro chão.

Só um homem dilatado
é que pode sentir com extrema precisão
a ferida que não sara
o amargo que não passa.

Damo-nos as mãos
na expectativa de calor.
mas,

____________________É dura a vida.
___________________________________É líquida a vida.

Sonho desfeito
em tanta água, em tanto agouro.
nos abate até o choro.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Poema de praia

Para aquela que eu esqueci

Quase no fim do verão,
te vi andando pela enconsta da praia.
O sol tinha preguiça de ir embora
e fazia brilhar as espumas do mar.
Você é ainda mais bonita na luz.
Caminhava sério
pisando suave na areia quente.

A praia era só sua
tão somente sua.
Cada grão e cada gota d'água
pertenciam ao teu rosto, aurora de todas as manhãs.

Fica comigo, deixa que eu seja
também uma parte do teu oceano,
azul que te veste, onda em fuga.

Depois, quando a noite cair
estaremos só nós dois
mergulhados de mar
gosto de sal, pele queimada
Sozinhos em um acordo íntimo
como a mão esquerda e a direita.

Quando o sono chegar, lá fora, o mar também estará domindo
e o céu, será esse nosso leito eterno
do tão merecido descanso.

Não acorde agora minha vida, é cedo.
Deixa que eu te conte histórias
até você voltar ao sono.
A brisa da praia te acarinha, e ela é quente e suave.
É estranho,mas você é ainda mais bonita
nessas noites de verão...