quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Poema de praia

Para aquela que eu esqueci

Quase no fim do verão,
te vi andando pela enconsta da praia.
O sol tinha preguiça de ir embora
e fazia brilhar as espumas do mar.
Você é ainda mais bonita na luz.
Caminhava sério
pisando suave na areia quente.

A praia era só sua
tão somente sua.
Cada grão e cada gota d'água
pertenciam ao teu rosto, aurora de todas as manhãs.

Fica comigo, deixa que eu seja
também uma parte do teu oceano,
azul que te veste, onda em fuga.

Depois, quando a noite cair
estaremos só nós dois
mergulhados de mar
gosto de sal, pele queimada
Sozinhos em um acordo íntimo
como a mão esquerda e a direita.

Quando o sono chegar, lá fora, o mar também estará domindo
e o céu, será esse nosso leito eterno
do tão merecido descanso.

Não acorde agora minha vida, é cedo.
Deixa que eu te conte histórias
até você voltar ao sono.
A brisa da praia te acarinha, e ela é quente e suave.
É estranho,mas você é ainda mais bonita
nessas noites de verão...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Carta de um estrangeiro

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.


Depois de um dia de trabalho, ela disse que precisaria de mim no sábado. Queria sentir-se confortada, queria-me, no fundo, como prêmio de sua labuta. Eu, o prêmio às avessas. Eu, nem prêmio, nem castigo. Eu, levemente aniquilado pelo descaso, aniquilado ao conforto depois da rotina cansada. Tornar-me-ia o travesseiro engomado.
Todas as pessoas precisam umas das outras. Seja para se afirmar, lamentar ou descansar. Estamos presos, de maneira inexorável, ao reduto do nada. Tornamo-nos conforto e leito.
Depois da rotina, é preciso o merecido descanso, pois a ordem dita às regras conforme seus desejos. Por causa do suor, no aniquilamos mutuamente minha querida. Deixamos para trás um dia, e depois outro dia, e outro dia, até que todos os dias tenham se esgotado, e, finalmente, eu me encotrar sozinho na celebração de mais um ano da minha existência-leito. Achando isso a mais monstruosa de todas as coisas e , por isso mesmo, a mais absurda.
Não fique comovida, os dias teriam de passar de uma forma ou de outra, mas, poderíamos passá-los juntos, longe da vida sem tempo. Ainda, sim, é preciso que nos esgotemos, porque fomos abandonados a este princípio norteador, que, ao contrário de nortear, nos abandonou sem rumo.
Estamos acostumados a isto, é o sagrado que nos move.
Você quer me ter no sábado; quer poder tirar os sapatos, a roupa séria, pra depois deitar no meu peito, e adormecer segura, confortada. Quanto a mim, me reduzo a sua bengala, e preciso estar pronto para louvar suas conquistas e chorar as suas perdas. A máquina que nos guia ajeitou tudo assim.
Estou aqui, pronto para confortar-te, para ser seu consolo, seu esconderijo. Estarei de braços abertos, esperando seu abraço, serei o seu regaço até a hora em que você precisar partir, para dar corda a vida lá fora de novo.
Depois do sábado, você terá partido, mas ainda estarei aqui no domingo. E assim, sábado após sábados, estaremos nos reduzindo um ao outro. Hora eu irei me apoiar em você, e hora você irá encostar-se a mim.
O absurdo disso tudo, não é a rotina, mas, minha confissão que não tem o direito de se revelar diante da máquina que construímos. No final, o absurdo é conceber nossas vidas assim. Todos apontarão minha insensibilidade, palatável de alguma investigação psicológica, e, novamente, estarei recolhido no absurdo dessas minhas palavras – facas cegas -.
Talvez, o pior esteja em mim, porque te espero ansioso nos dias que nos restaram. Veja bem que não sou ninguém para condenar o ninguém dos outros, afinal, que faço eu para merecer louvor? Constatar o absurdo emaranhado junto de nós? Ou condenar tudo e todos seguindo um ponto de vista?
Penso que o meu nada me une ao nada dos outros. Meu orgulho está então, enclausurado neste olhar-contra-fluxo-da-vida? Mas o orgulho um dia também morrerá. Por isso, não me orgulho de nada. Estamos presos ao paradoxo incontornável do pensamento e dos pontos de vista. O que eu te confesso, recairá infinitamente sob o meu ponto de vista e a maneira pela qual eu concebo sua necessidade de precisar de mim no sábado.
Quero me deixar ser eternamente sua esperança nos finais de semana. Não nos resta conforto melhor que esse. Por isso digo que não tenho orgulhos, porque me deixo cair nesta máquina invisível ao olhos.
Nada nos restará, se não esses momentos de Sábado. E eu quero tê-los comigo pra poder fazer deles a coisa mais bonita do mundo. Quero transformá-los no mais próximo da vida que eu objetivo.
Tudo isso que eu disse para você irá se apagar. Mas há em mim alguma coisa de inquietude, mas até isso, irá se apagar junto comigo.
O absurdo de sua sinceridade sem maldade é meu bem mais precioso. Rogo por essa sua vontade, mesmo sabendo que ela não é o fruto da vida pensada fora dessa vida.
Só existimos uma única vez, por isso, me deleito nos espinhos. Seja a vida uma ilusão, ainda assim é preciso vive-la.
Estou pronto para assumir esta condenação inquebrentável. Quero ancorar-me nos nossos sábados fugidios e pensá-los para sempre como constitutivos de uma vida que será eternamente amada e amante, plena e infinita.

Pra quem anda se sentindo como Alberto Caeiro...

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.
"E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

sábado, 31 de outubro de 2009

Uma só coisa

O sol é bem quente porque só sabe queimar. Quanta sorte a dele.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Hospedeiro

É noite de todos os presságios
Inquebrantável, ela se arrasta por todos nós
Vai indo desde o lar que já dorme
Até o momento mais intimo do casal; dissolvidos em paixão

Silenciosa, faz tremer a carcaça
que não sabe onde vai.
É silêncio magnético, imã que atrai.
É moldura envelhecida, é erosão d’um grito de terror.

Há de atravessar todos os seres
Partindo-lhes em dois o coração:
o medo do destino
nos restos da ilusão.

Amanheceu em vossas camas,
esse hospede viajante.
Como é fúnebre a incerteza
de todos os amantes!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Eternamente

À minha mãe



da vida, fez-se existência.
do sonho o desmoronar da ilusão
da saudade nasceu o abandono
horizonte de imensidão.

tempos de inverno
flores ao chão
mar congelado
só nessa estação.

abrindo caminhos
usando as mãos
teu filho te espera
com seu único coração.

remoído o gelo
o sol há de vingar
por vindouros caminhos
voltaremos a andar.

não te aflijas a alma
não te deixes imergir
a vinda que sempre se renova
desperta novamente a aurora.

se chove, faz frio e é noite
a manhã que sucede
espera pra poder te acolher:
no sol, nos céus e em tudo que há para ver.

domingo, 4 de outubro de 2009

estrada do caminho velho
devemos ir adiante?
erosão comigo mesmo
um vulto foi indo além
para lá adiante
onde estão depositados todas
as minhas ilusões perdidas;
há de se prosseguir, não há meia volta.
paro pra poder fumar,
queria deixar de fumar.
tenho sede, quero água,
a mais cristalina de todas,
quero poder me deixar deitar na grama
pra poder olhar o desconhecido
que habita em mim
será que podemos amar sem ter medo?
Lembro-me de meus pais
tão distantes daquilo que eu sou hoje
abandonei a mim mesmo
num esquecimento antigo,
numa estrada empoeirada de tão velha.
A distânia vai matando quem nós amamos.
fiz um caminho que parece triste.
Minha irmã pequenina agora é só memória
das fotos que revejo
é preciso sinceridade sem lirismo às vezes.
O que machuca jamais foi moldado à ouro.
Cá estou, longe de casa
sem saber retorna aos tempos de ciranda.
tenho vontade do algoz
do carinho de minha mãe
o tempo vai indo
e nós vamos indo junto com ele
ela disse que eu sentiria saudade dela
mas isso eu jamais omiti em mim.
É estranho me ver voltar pra
essa minha nova rotina.
Roupa suja, panela limpa, casa intocada, tv desligada.
Negligenciei o meu amor com todos
incosolável, é essa a palavra que faltava aqui...